sexta-feira, 28 de setembro de 2012

RELATÓRIO TECNICO FINAL DO SEMINÁRIO DO PROJETO DE PESQUISA "HISTÓRIA E MEMÓRIA: COMUNIDADES NEGRAS RURAIS DO MUNICIPIO DE POCONÉ/MT"


 
RELATÓRIO TÉCNICO  FINAL DO SEMINÁRIO DO PROJETO DE PESQUISA

“HISTÓRIA E MEMÓRIA: COMUNIDADES NEGRAS RURAIS

DO MUNICÍPIO DE POCONÉ/MT”

 

a) DATA DE REALIZAÇÃO DO SEMINÁRIO  29 de julho de 2006

b) LOCAL     CAP-SESC Pantanal em Poconé

c) OBJETIVOS

Seminário do Projeto de Pesquisa “História e Memória: comunidades negras rurais de Poconé/MT” e o Encontro de Comunidades Negras Rurais do município de Poconé é uma promoção do projeto de pesquisa “História e Memória: comunidades negras rurais no município de Poconé/MT”, realizado pela UNEMAT/Campus de Cáceres, Prefeitura Municipal de Poconé, e Comunidade Negra Rural Quilombola Campina de Pedra, com apoio da Fundação de Amparo a Pesquisa de Mato Grosso- FAPEMAT, Secretária Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial –SEPPIR, CAP-SESC Pantanal e Universidade do Estado de Mato Grosso-UNEMAT/Campus de Cáceres,  tendo os seguintes objetivos:

 

Objetivo Geral


Apresentar os resultados do Projeto de Pesquisa “História e Memória: comunidades Negras Rurais do município de Poconé/MT” aos moradores (as) e lideranças das comunidades pesquisadas, e ser um espaço para a apresentação, discussão dos direitos fundiários, culturais e sócio – econômicos das comunidades negras rurais quilombolas  previstas pela Legislação Federal e Estadual; “visibilização dessa comunidades e; apoiar o protagonismo dessas comunidades através do encontro das mesmas com órgãos governamentais  federais, estaduais e municipais, ONGs e movimentos sociais.

 

Objetivos detalhados


1-      possibilitar o encontro entre moradores e lideranças das comunidades quilombolas de Poconé,  para discussão de seus problemas e fortalecimento de suas organizações;

2-      apresentação da Legislação Federal e Estadual referentes às comunidades quilombolas e elaboração de propostas para a efetivação dessas leis;

3-      possibilitar o encontro entre as comunidades quilombolas com órgãos federais encarregados da aplicação da legislações referentes aos direitos fundiários, culturais, econômicos e sociais das comunidades negras rurais quilombolas, visando incrementar as ações destas entidades;

4-      Apresentação pelas órgãos públicos federais de  suas ações (ou possibilidades de atuação) nas comunidades quilombolas;

5-      Encontro de órgãos federais encarregados da aplicação da Legislação Federal sobre as comunidades quilombolas com órgãos públicos estaduais encarregados de executar a Legislação referentes aos quilombolas em Mato Grosso, gestores da Prefeitura de Poconé, ONGs e demais interessados

6-      apresentação de resultados do projeto de pesquisa “História e Memória: Comunidades Negras Rurais do município de Poconé.

 

d)     ATIVIDADES REALIZADAS NO EVENTO

1-      07:30 – 08:30 – Chegada das comunidades  - lanche

2 – Mesa de Abertura do evento com  prefeito  municipal de Poconé, deputado federal Abicalil; coordenador do Projeto de Pesquisa “História e Memória...”, representantes da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial /SEPPIR, Ministério do Desenvolvimento Agrário/MDA, Fundação Cultural Palmares/FCP, Ministério da Integração Social, e representante das comunidades quilombolas de Poconé.    

3 – Entrega pela representante da Fundação Cultural Palmares -FCP de Certificados de Reconhecimento de Comunidade como Remanescente de quilombo para as comunidades presentes.

4 - Apresentação cultural, apresentação do grupo de Siriri da Comunidade Negra Rural Quilombola Campina de Pedra

5 -  Mesa sobre Comunidades Quilombolas- o que são e quais os seus direitos? com o coordenador do Projeto “História e Memória...”; representantes da SEPPIR e da FCP;  (debate)

6 - Intervalo/Café

7- Mesa sobre Direitos Territoriais e Projetos de Desenvolvimento e Geração de Renda com MDA/INCRA e Técnicos do INCRA Coordenadoria de Cuiabá; e Ministério  do Desenvolvimento Agrário   (debate)

8– Almoço 12:30 as 13:30

9 -  Mesa sobre Políticas Sociais e Infra-Estrutura com Ministério de Integração Social; Fundação Nacional de Saúde; Ministério de Desenvolvimento Social e Combate à Fome; Delegacia Regional do Trabalho –TEM     (debate)

10-  Intervalo / Lanche com produtos regionais das comunidades quilombolas de Poconé

11-  Apresentação Cultural: apresentação de dança afro-brasileira com o grupo “Raio de Luz” de Cáceres e apresentação do grupo de siriri da comunidade rural da Figueira/Poconé

12- Reunião dos quilombolas

13 - Reunião das entidades federais, estaduais e municipais;

14-  18:00 horas - Lanche e retorno dos participantes do evento

 

EXPOSIÇÕES APRESENTADAS NO EVENTO


-          Exposição de artesanato, remédios de plantas medicinais, bebidas, doces e alimentos produzidos nas comunidades negras rurais de Campina de Pedra, Jejum, Capão Verde, Céu Azul e Morro Cortado.

-          Exposição dos resultados do Projeto de Pesquisa “História e Memória: comunidades negras rurais de Poconé/MT” .

 

Observação: A Exposição dos resultados do Projeto de Pesquisa “História e Memória: comunidades negras rurais de Poconé/MT”,  foi realizada através de exposição de painéis e banners de fotografia e textos, que ficaram expostos durante todo o e vento.  Também foi parte de duas palestras que realizei no evento, durante a mesa de abertura oficial e a mesa “Comunidades Quilombolas: o que são e quais seus direitos”.

 

e)      PARTICIPANTES DO EVENTO

No evento estiveram presentes 24 Comunidades Negras Rurais Quilombolas do municipio de Poconé, trinta e uma entidades (federais, estaduais e municipais), totalizando  200 (duzentas) pessoas, a maioria das comunidades negras rurais de Poconé, Também estiveram presentes  professoras de comunidades rurais de Poconé e alunos (as) dos cursos de Licenciaturas Parceladas da UNEMAT em Poconé (Ciências Biológicas e Geografia).

 

f)       AVALIAÇÃO DO EVENTO

Na analise informal da coordenação do evento: Teófilo Mendes da Silva, liderança da Comunidade Negra Rural Quilombola Campina de Pedra, Arlindo vice –prefeito e Secretario de Agricultura de Poconé;  Maria Isabel Arruda , Primeira Dama de Poconé e ex-Secretaria de Ação Social , Antonio Moura professor da UNEMAT e coordenador do projeto de pesquisa “História e Memória..” o evento atingiu os seus objetivos; o numero de comunidades negras rurais e de participantes foi satisfatório, a infra-estrutura do evento foi adequada, a alimentação (lanches, almoço) foi farta e de qualidade.

            Como aspectos que afetaram negativamente o evento é necessário destacar a ausência de órgãos estaduais INTERMAT, Secretaria de Estado da Educação, Secretaria de Estado da Cultura, Secretaria de Estado do Emprego, Trabalho e Cidadania, importantes para o cumprimento da Legislação Federal e Estadual sobre Comunidades Quilombolas.

   Outros fatores que prejudicaram o evento foi a duração das mesas acima do tempo previsto, e a impossibilidade de aumentar a duração do evento devido ao desconforto térmico causado pela queda inesperada de  temperatura e a necessidade de atender a solicitação do  Grupo de Dança de Siriri da Comunidade Rural do Figueira (especialmente convidados para apresentar no encontro) de apresentar e  sair mais cedo para participar de outro evento.   Esses fatos fizeram com que na reunião das comunidades não fosse discutido toda a temática planejada, que não fosse feito um encerramento formal do evento e que o lanche do retorno fosse servido dentro dos ônibus, não atendendo os participantes da forma que havíamos planejado.  A não realização de  reuniões preparatórias planejadas para serem realizadas em três localidades onde se concentrariam as outras comunidades negras rurais foi um aspecto que impossibilitou que todas as comunidades presentes estivessem anteriormente discutido as temáticas do Encontro e pudessem ser mais reenvidicativas no mesmo.   Outro aspecto, que não prejudicou o evento, mas está causando problemas na prestação de contas do mesmo é o atraso injustificado da SEPPIR em repassar os R$ 2.500,00 (dois mil e quinhentos reais) referentes ao apoio prometido para a coordenação do Encontro.   Outro fato que impediu que o Encontro tivesse mais apoio e recursos foi a falta de recursos de muitas instituições devido ao atraso da votação do Orçamento Federal e o fato do Encontro ter ocorrido em período eleitoral (temor das entidades de serem acusadas de infringir a “Lei Eleitoral” )

Como ocorrências positivas podemos citar: 1- a presença da maioria dos órgãos federais convidados para o Evento; 2- a presença do Promotor de Justiça em Poconé que se interessou pessoalmente pelos encaminhamentos das decisões do Encontro; 3- a realização de visitas e reuniões da SEPPIR e da Eletronorte , juntamente com o coordenador do Projeto de Pesquisa “História e Memória...”nas comunidades negras rurais de Poconé o que auxiliou a mobilização e a discussão da temática do Encontro; 4 - a realização do encontro municipal de comunidades negras rurais quilombolas, o primeiro realizado no Estado de Mato Grosso;  5 -  a formação de uma Coordenação provisória das Comunidades Negras Rurais Quilombolas de Poconé, encarregada de representar essas comunidades perante as autoridades e atuar na organização e mobilização das mesmas; 6 –   a reunião de órgãos federais, estaduais e municipais que deliberaram por iniciarem ações nas comunidades quilombolas de Poconé.; 7 –  a continuidade do repasse dos resultados do projeto de pesquisa “História e Memória: comunidades negras rurais de Poconé para as comunidades “objeto da pesquisa”, para as autoridades e população de Poconé.

 

g)      PROPOSTAS DE AÇÕES  POSTERIORES


-          Entrega de fotografias e textos sobre os dados levantados para as comunidades pesquisadas (programado para ser realizado);

-          Realização de um encontro mais acadêmico e técnico sobre os resultados do projeto de pesquisa “História e Memória: comunidades negras rurais no município de Poconé/MT”,;

-           Exposição etnográfica no Museu da UNEMAT (Cáceres)-  programado para ser realizado;

-  Repasse dos resultados do projeto de pesquisa “História e Memória: comunidades negras rurais no município de Poconé/MT”,   para a população urbana de Poconé (Exposição de fotos, debates )

-          Realização de Encontro Técnico com órgãos estaduais encarregados de aplicação da Legislação Federal e estadual referentes aos direitos das comunidades negras rurais quilombolas

 

 

h)    MATERIAL DE DIVULGAÇÃO DO EVENTO

O Seminário do projeto de pesquisa “História e Memória: comunidades negras rurais no município de Poconé/MT” e o 1º Encontro de Comunidades Negras Rurais Quilombolas de Poconé foi divulgado através de folheto; carta – convite para as entidades; e noticias colocadas na imprensa municipal e estadual.   Noticias sobre a realização do evento e sobre o evento foram publicados em sites da Internet em Mato Grosso e de outros Estados (vide fotocópias ema anexo). Foram feitas fotografias digitais do evento que foram disponibilizadas no site da Prefeitura Municipal de Poconé ( www.prefeituramunicipaldepocone.com.br)   A UNEMAT colocou diversas noticias sobre o evento em seu site  (www.unemat.br)  e realizou filmagem do evento que futuramente será editada.

 

Cáceres 21 de setembro de 2006

 

 

Antônio Eustáquio de Moura

Coordenador do projeto de pesquisa “História e Memória:

 comunidades negras rurais no município de Poconé/MT”, e membro da Coordenação do Encontro de Comunidades Negras Rurais Quilombolas do municipio de Poconé

Procedimentos para a identificação, reconhecimento, delimitação, demarcação e titulação de terras ocupadas por remanescentes de comunidadesn dequilombos: comparação entre o Estado de Mato Grosso e São Paulo


 

 

Procedimentos para a identificação, reconhecimento, delimitação, demarcação  e Titulação de terras ocupadas por remanescentes de comunidades de quilombos  : comparação entre o Estado  de Mato Grosso e São Paulo.[1]

 

            O objetivo deste texto é fazer uma comparação entre as propostas iniciais do Estado de São Paulo e do Estado de Mato Grosso para atuação nas comunidades remanescentes de quilombos.

 A ) - Procedimento Geral

            É definido pela Portaria da Fundação Cultural Palmares n.º 40 de 13 de Julho de 2002 .   O referido procedimento administrativo compreende, a elaboração de Relatório Técnico e de parecer conclusivo pela Fundação Cultural Palmares, a autorga do titulo de propriedade e seu respectivo registro.

            De acordo com essa portaria :

Artigo 3 - o Relatório Técnico deve conter: 1- a identificação dos aspectos técnicos, históricos, culturais e sócio-econômicos do grupo; 2 - a delimitação, medição e a demarcação topográfica do território ocupado; 3 - o levantamento dos títulos e registros incidentes sobre as terras ocupadas e a respectiva cadeia dominial, perante o registro de imóveis competente; 4 - parecer jurídico;

Artigo 4 - a Fundação Cultural Palmares poderá realizar os estudos de reconhecimento dos remanescentes de comunidades de quilombos, através de seus técnicos, ou delegar este trabalho para técnicos de outras instituições do Governo Federal ou estadual, através de convênios, contratos , ou termos de cooperação técnica;

Artigo 5 - os estudos para a elaboração do Relatório Técnico serão realizados em campo, devendo os pesquisadores serem acompanhados de representante da comunidade envolvida, ou pessoas designadas pela comunidade.

 
B ) - Procedimentos utilizados no Estado de São Paulo

            São regulados pelo Decreto n.41.774 de 13 de maio de 1997, Lei n. 9.757 de setembro de 1997 e Decreto n. 42.839 de 4 de fevereiro de 1998.

            A causa determinante para o Governo do Estado de São Paulo ter iniciado a atuar em questões ligadas às comunidades remanescentes de quilombos localizadas no Estado, foi a apresentação de demanda da comunidade negra de Ivaporunduva, a qual em 1994, apresentou Ação Ordinária na Justiça Federal de São Paulo pleiteando o reconhecimento e a titulação de suas terras, e contatou com a Procuradoria da Republica visando o atendimento desta demanda.   Outro fator importante foram as ações iniciadas pelo Ministério Publico Federal em São Paulo para atender as solicitações da comunidade de Ivaporunduva.

 
B1 - Criação de um Grupo de Trabalho para levantar a situação das comunidades remanescentes de quilombos em São Paulo e fazer proposta de atuação nas mesmas

            Antes de iniciar diretamente ações nas comunidades negras rurais existentes no Estado, o Governo Paulista criou, através do Decreto n.º 40.723/96 de 21 de Março de 1996, um Grupo de Trabalho com o objetivo de elaborar proposições objetivando a aplicação dos dispositivos constitucionais que conferem o direito de propriedade das terras ocupadas por remanescentes das comunidades de quilombos em território paulista.   Este Grupo, era composto por representantes da Secretaria da Justiça e da Defesa da Cidadania; Instituto de Terras do Estado de São Paulo; Secretaria do Meio Ambiente; Procuradoria Geral do Estado; Secretaria de Governo e Gestão Estratégica; Secretaria de Cultura;  Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo; Conselho de Participação e Desenvolvimento da Comunidade Negra do Estado de São Paulo; Subcomissão do Negro da Comissão de Direitos Humanos da OAB- seção São Paulo e Fórum Estadual de Entidades Negras.

 

Ações do Grupo de Trabalho criado pelo Decreto Lei n.º 40.723/96

- convidou pesquisadores e estudiosos sobre comunidades negras rurais, pertencentes a universidades, órgãos públicos e ONGs, para participarem do grupo, visando o enriquecimento dos debates e a ampliação dos conhecimentos sobre o tema;

- contatou com prefeituras, presidentes de Câmaras  Municipais Paulistas, e pessoas e entidades  ligadas ao Movimento Negro, solicitando informações sobre a existência  remanescentes de Comunidades de Quilombos;

- membros do Grupo visitaram as comunidades quilombolas para conhecimento de suas formas de organização, suas carências e suas riquezas;

- requisitou apoio do Instituto de Terras do Estado de São Paulo, para a realização de diagnóstico da situação dominial de áreas ocupadas pelos remanescentes de Comunidades de Quilombos;

- instalou um Grupo de Trabalho com a missão de identificar e localizar fisicamente as Comunidades Remanescentes de Quilombos do Vale do Ribeira do Iguape;

- recomendou um programa específico para atuação do Estado de São Paulo em terras públicas estaduais, e parcerias com Prefeituras para atuação em terras devolutas municipais e distritais, além de parceria com a União para a atuação em terras de particulares;

- realizou  Audiência Pública para a discussão ampla das propostas do GT;

 

Resultados da atuação do Grupo de Trabalho

O grupo de Trabalho obteve informações sobre a existência de 21 (vinte e uma) comunidades remanescentes de quilombos, localizadas em diferentes regiões do Estado de São Paulo.   Elaborou propostas, que foram posteriormente promulgadas como a Lei n.º 9.757 de 15 de Setembro de 1997 adequando a legislação paulista de legitimação de posse em terras devolutas à situação dos remanescentes de comunidades de quilombos; e o Decreto º 41.774/97 com propostas para a atuação do Governo Paulista nas áreas de remanescentes de comunidades de quilombos.

            As propostas do Grupo de Trabalho foram amplamente discutidas em audiência pública realizada em 30 de Novembro de 1996, com a participação de aproximadamente 300 convidados, entre quilombolas, representantes de órgãos públicos e ONGs.

 

B 2 - Promulgação de Leis e Decretos

Decreto n.º 41.774 de 13 de Maio de 1997

1- Dispõe sobre ações  para a identificação, discriminação e legitimação de terras devolutas do Estado de São Paulo, ocupadas por remanescentes de comunidades de quilombos., prevendo a regularização fundiária e a implantação  de medidas sócio-econômicas, ambientais e culturais, tendo como base os Artigos n.º 68 do ADCT da Constituição Federal e os Artigos 215 e 218 da referida Constituição.

2- Este Decreto instituiu um Programa de Cooperação Técnica e de Ação Conjunta a ser implantado entre a Procuradoria Geral do Estado, Secretária do Meio Ambiente, Secretaria da Justiça e da Defesa da Cidadania, Secretaria da Cultura, Secretaria de Educação, Secretaria de Agricultura e Abastecimento, e Secretaria do Governo e Gestão Estratégica.

3- Instituiu um Grupo Gestor , vinculado ao Gabinete do Governador, composto de um representante da Procuradoria Geral, um representante da Secretaria da Justiça e da Defesa da Cidadania, um representante do Instituto de Terras do Estado de São Paulo, um representante da Secretaria de Cultura, representante do Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo, um representante da Secretaria do Meio Ambiente, um representante da Secretaria do Governo e Gestão Estratégica, um representante da Secretaria da Agricultura e do Abastecimento, um representante da Secretaria de Educação, um representante da Fundação Florestal, um representante do Conselho de Participação e Desenvolvimento da Comunidade Negra, um representante da OAB - Seção de São Paulo - Subcomissão do Negro da Comissão  de Direitos Humanos, um representante do Fórum Estadual de Entidades Negras de São Paulo.    Sendo os representantes das entidades indicados pelo Procurador Geral do Estado, pelos Secretários de Estado e pelas entidades nele representados.

As funções do Grupo Gestor eram de coordenar e acompanhar o andamento das ações previstas pelo Decreto n.º 41774; fixar cronograma de ações; estabelecer contatos e propor celebração de convênios com órgãos públicos ou privados, visando a troca de informações e experiências no trato das questões quilombolas; e apresentar propostas de ações a serem desenvolvidas em cada comunidade remanescente de quilombo.  O programa de ações para cada comunidades remanescente de quilombo, deveria contar com a participação dos membros da comunidade em todas as etapas de execução do mesmo.

 

Principais Atividades previstas pelo Grupo de Trabalho, criado pelo  Decreto

n.º 40.723/96, para os órgãos governamentais do Estado de São Paulo

.1 - Procuradoria Geral do Estado

- priorizar o ajuizamento e o andamento das ações discriminatórias e os Planos de Legitimação de Posses nas áreas ocupadas pelos remanescentes de quilombos;

- designar Procuradores do Estado para prestarem serviços indicados no âmbito de jurisdição da Procuradoria Regional competente e dar suporte jurídico na hipótese da declaração de propriedade às comunidades por meio de Ações de Usucapião;
 
2 - Instituto de Terras do Estado de São Paulo

- realizar trabalhos geodésicos e topográficos de levantamento de perímetros ou área destacadas de locais onde haja ocupação de comunidade remanescente de quilombo (CRQ), visando a sua discriminação, medição e demarcação;

- estudar, elaborar e implementar normas e métodos de trabalhos objetivando a elaboração de projetos de exploração econômica e extrativista, bem como  prestar assistência técnica visando o desenvolvimento econômico e social das comunidades;

- colher dados, documentos e informações para subsidiar a solução de eventuais conflitos que envolvam as comunidades remanescentes de quilombos.


3 - Secretaria de Cultura

- implementar Programas Culturais visando a valorização da cultura das CRQ;

- desenvolver estudos através do Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico, e Turístico do Estado de São Paulo para tombamento das áreas  conforme o Artigo 216 da Constituição Federal;

- desenvolver e implementar programas visando a recuperação, preservação, manutenção e restauração do Patrimonial cultural, material e não material das CRQ;

4.4 - Secretaria de Educação

- instituir projeto integrando a educação formal com a educação voltada para a recuperação e valorização da cultura e história afro-brasileira, ênfase aos direitos humanos e o combate ao racismo e as discriminações;

4.5 - Secretaria de Agricultura e Abastecimento

- desenvolver estudos técnicos visando :

a- a melhoria das condições de exploração ,extração, beneficiamento e comercialização dos produtos agropecuários;

b - o resgate e a valorização de suas praticas tradicionais de utilização da terra e de seus produtos agropecuários de subsistência;

c- ações na área de associativismo e cooperativismo nas terras ocupadas pelas CRQ.

4.6 - Secretaria do Meio Ambiente

- instituir programas de extensão ambiental e fomento de atividades sustentadas, de utilização de recursos florestais junto as comunidades remanescentes de quilombos;

- proceder a solução de problemas que envolvam as CRQ e Áreas de Proteção Ambiental e áreas de entorno das Unidades de Conservação.

4.7 - Secretaria do Governo e Gestão Estratégica

- compatibilizar as ações dos diversos órgãos com os fins especificados pelo Decreto  n.º 41.774/97

Lei n.º 9.757 de 15 de Setembro de 1997

Dispõe sobre a legitimação de posse de terras públicas estaduais aos remanescentes de comunidades de quilombos, em atendimento ao Artigo 68 do Ato das Disposições Transitórias da Constituição Federal.   De acordo com esta Lei o Estado de São Paulo expedirá títulos de legitimação de posse de terras públicas estaduais aos remanescentes de comunidades de quilombos ( Artigo 1 ), sendo que o título será emitido sem ônus para a associação representante da comunidades do quilombo, mas tendo clausula de inalienabilidade ( Artigo 2 )

Decreto n.º 42.839 de 04 de Fevereiro de 1998

Dispõe sobre a legitimação de posse de terras públicas do Estado de São Paulo aos remanescentes de comunidades de quilombos.

Propõe que :

a) compete à Secretaria da Justiça e da Defesa da Cidadania, através do Instituto de Terras do Estado de São Paulo - ITESP identificar as áreas ocupadas pelas CRQ e demarcá-las para fins de posse ( Artigo 1)

b) os remanescentes de comunidades de quilombos serão identificados à partir de critérios de auto-identificação e dados histórico sociais escritos ou orais, por meio de Relatório Técnico - Cientifico elaborado pelo ITESP;

c)  nos Relatórios Técnico - Científicos constarão os limites totais das áreas ocupadas , conforme territorialidade indicada pelos Remanescentes de Comunidades de Quilombos, que levarão em consideração os espaços de moradia, exploração econômica, social, cultural, e os destinados aos cultos religiosos e ao lazer, garantindo-se as terras necessárias à sua reprodução física e sócio-cultural ( Artigo 3 );

d) as associações dos Remanescentes de comunidades de quilombos terão participação nos processos de identificação e demarcação de suas respectivas áreas ( Artigo 4).


C ) Identificação de Remanescentes de Comunidades de Quilombos no Estado de Mato Grosso

Não existe no Estado de Mato Grosso uma normatização de procedimentos para a identificação, demarcação e legitimação de áreas ocupadas pelas comunidades remanescentes de quilombos (CRQ), bem como da aplicação de medidas preconizadas pelos Artigos 215 e 216 da Constituição Federal, semelhante às existente no Estado de São Paulo,

            A única experiência de identificação e demarcação de terras de remanescentes de comunidades de quilombos no Mato Grosso foi através do Intermat que promulgou a Portaria n. 148/97 com o seguinte teor:

" O presidente do Instituto de terras do Estado de Mato Grosso-INTERMAT, no uso de suas atribuições legais, e considerando o Artigo 68 da Constituição Federal.

Resolve:

1 - Constituir um Grupo de Trabalho Multidisciplinar, envolvendo os Setores Sociais e de Governo, com a finalidade de levantar a situação e apresentar proposta de Lei que discipline e disponha sobre os procedimentos de titulação de terras aos Remanescentes das |Comunidades dos Quilombos;

ll - O Grupo de Trabalho será composto pelos seguintes representantes  de Órgãos e Entidades:

A) INSTITUTO DE TERRAS DE MATO GROSSO - INTERMAT:

- Ana Elza Alves Pereira

B) COMUNIDADE DE MATA CAVALO:

- Teresa Conceição Arruda

- Germano Ferreira de Jesus

- Pedro Guilherme da Silva

- Cesário Sarat da Silva

C) ASSOCIAÇÃO DAS ESCOLAS CATÓLICAS - A E. C.:

- Carlos Alberto Caetano

D) ASSOCIAÇÃO DOS FILHOS DE VILA BELA:

- Acildo Leite da Silva

E) GRUPO UNIÃO E CONSCIÊNCIA NEGRA - GRUCON :

- Edvande Pinto de França

F) SECRETARIA ESTADUAL DE CULTURA:

- Doralice Gonçalina de Assis

E) CAMÂRA MUNICIPAL DE CUIABÁ:

- Vereador Rinaldo Almeida

lll - Os trabalhos serão coordenados  pela representante da Secretaria Estadual de Cultura-  DORALICE GONÇALINA DE ASSIS.

lV - Fica estipulado o prazo de 30 (trinta) dias para a conclusão dos trabalhos, prorrogável por igual período, se necessário.

V - Esta Portaria entra em vigor na data da sua publicação.

Vl - Registrada, Publicada, Cientificada, Cumpra-se "

A Portaria n.º 148/97 foi assinado por Aparecido Alves de Oliveira -presidente do INTERMAT e publicado do Diário Oficial do Estado de Mato Grosso de 16 de Dezembro de 1997.

            De acordo com informações que tivemos a única ação deste Grupo de Trabalho foi no Complexo Sesmaria Boa Vida - Quilombo Mata Cavalos, os membros deste GT visitaram a área, entrevistaram antigos moradores e realizaram um levantamento de documentos sobre a área, e elaboraram um relatório onde concluíam que as terras da gleba eram terras de remanescentes de Comunidade de quilombo.

            A demarcação da área da Gleba Sesmaria Boa Vida Quilombo Mata Cavalos, foi realizada pela Comissão Especial de Discriminatória de Terras Devolutas Do Estado de Mato Grosso, designada através da Portaria n.º 07/97 , publicada no Diário Oficial  do Estado de Mato Grosso em 13 de Janeiro de 1997.   O perímetro foi levantado, medido e demarcado por uma equipe técnica do INTERMAT.

            Em 23 de Abril de 1998 através do Decreto nº 2.205 o Governo do Estado de Mato Grosso, acatando o Relatório do GT criado pela INTERMAT através da Portaria 148/97, reconheceu como remanescente de comunidade de quilombo a comunidade negra da Gleba Sesmaria Boa Vida Quilombo Mata Cavalos.

Em 14 de Julho de 2.000, a Fundação Cultural Palmares emitiu Titulo de Reconhecimento de Domínio de 11.722 hectares do Quilombo Mata Cavalo ( Gleba Sesmaria Boa Vida Quilombo Mata Cavalo) para a Associação dos Remanescentes da Sesmaria Boa Vida-Quilombo Mata Cavalo (TRD/FCP/n 007/2000).   Entretanto não foram retirados os fazendeiros e sitiantes não remanescentes moradores na área, nem foram repassadas à associação dos remanescentes as terras arrecadadas pelo INTERMAT na área (Gleba Tutica de 923 hectares e Gleba Jaçanã de 2.025 hectares). A associação dos remanescentes ainda não conseguiu registrar em cartório o titulo que recebeu.

            O Grupo de trabalho criado pelo INTERMAT não cumpriu totalmente os objetivos para o qual foi criado, não levantando a situação das comunidades remanescentes de quilombos em Mato Grosso e tampouco apresentado proposta de lei sobre os procedimentos de titulação de terras aos remanescentes das comunidades de quilombos.   Deste modo, apesar dos artigos referentes aos remanescentes de comunidades quilombolas terem sido promulgados na Constituição Federal de 1988 e na Constituição Matogrossense de 1989, não foram realizadas a identificação das outras comunidades remanescentes de quilombos existentes em Mato Grosso (mais de 30 comunidades), tampouco se criou uma normatização de procedimentos para a identificação, demarcação e legitimação das terras ocupadas pelos remanescentes de comunidades de quilombos, bem como para a aplicação das medidas preconizadas pelos artigos 215 e 216 da Constituição Federal.   Tendo, por razões que não queremos discutir neste momento, um resultado totalmente diferente aos alcançados pelo Grupo de Trabalho criado pelo Governo do Estado de São Paulo.


D ) Breve comparação entre os resultados obtidos na tauação com as comunidades remanescentes de quilombos entre o Estado de São Paulo e Mato Grosso

            
ESTADO
SÂO PAULO
MATO GROSSO
 
Inicio das atividades
 
 
1996
 
 
1997
 
Órgão encarregado de Atendimento as comunidades remanescentes de quilombos
Instituto de Terras de São Paulo - ITESP
Instituto de Terras de Mato Grosso - INTERMAT
Departamento/Setor de atendimento as comunidades remanescentes de quilombo
 
Tem
Assessoria de Quilombos
Não tem
Estrutura do Setor/Departamento de atendimento as comunidades remanescentes de quilombos
10 profissionais
engenheiros agrônomos
antropólogos
técnicos agrícolas
Não tem
Legislação para legalização de terras ocupadas por remanescentes de comunidades de quilombos
Tem
Em elaboração, com a regulamentação da Lei nº 7.755 de novembro de 2002
Programa de desenvolvimento sócio - econômico das comunidades remanescentes de quilombos
Tem
Em elaboração, com a regulamentação da Lei nº 7.755 de novembro de 2002
Convênio para obtenção de verbas e recursos para legalização das terras das comunidades remanescentes de quilombos
 
Tem
Com a Fundação Cultural Palmares
Não tem
Numero de comunidades remanescente de quilombo
Levantadas
 
 
23   ( 33[2] )
1
Numero de comunidades com as terras legalizadas[3]
7
1


Os dados do Estado de Mato Grosso referentes atuação com as comunidades remanescentes de quilombos são também inferiores aos dos Estados do Pará., Maranhão, Rio Grande do Sul e Pernambuco.

Antônio Eustáquio de Moura

ESCRITO EM Campinas , 4 fevereiro de 2003




[1]  Material produzido por Antônio Eustáquio de Moura – professor da Universidade do Estado de Mato Grosso-UNEMAT/doutorando em Ciências Sociais na UNICAMP/pesquisador sobre comunidades negras rurais mato-grossenses -  tel. 19-32681852  - Email- antomo@ig.com.br
[2]   33 comunidades de acordo com a Fundação Cultural Palmares e 23 de acordo com José Maurício ARRUTI
[3] De acordo com dados da Fundação Cultural Palmares  em novembro de 2002

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

EDUCAÇÃO QUILOMBOLA: AS LUTAS DAS COMUNIDADES QUILOMBOLAS E DAS COMUNIDADES NEGRAS RURAIS DO MUNICIPIO DE POCONÉ/MT POR ESCOLAS PUBLICAS DE QUALIDADE


EDUCAÇÃO QUILOMBOLA: AS LUTAS DAS COMUNIDADES QUILOMBOLAS E DAS COMUNIDADES NEGRAS RURAIS DO MUNICIPIO DE POCONÉ/MT POR ESCOLAS PUBLICAS DE QUALIDADE

 Prof.Dr. Antônio Eustaquio de Moura
Universidade do Estado de Mato Grosso/Campus de Cáceres

Antônio Sidney Miranda Silva
Universidade do Estado de Mato Grosso/Campus de Cáceres  (voluntário do Projeto de Extensão “Nós e os Outros...”

 

RESUMO
            A educação formal é muito valorizada pelas famílias das comunidades quilombolas e comunidades negras rurais de Poconé. 

            No 1º Encontro das Comunidades Quilombolas e das Comunidades Negras Rurais de Poconé, realizado em 2006, os moradores e as moradoras destas comunidades colocaram como uma das primeiras reivindicações a melhoria da estrutura e do funcionamento das escolas onde estudam alunos e alunas das comunidades.

             Em 2011, a Executiva da Coordenação das Comunidades Quilombolas e Comunidades Negras Rurais do município de Poconé/MT, decidiu retomar a luta pela melhoria da estrutura e funcionamento das escolas das comunidades. Um primeiro passo foi realização de um levantamento sobre a estrutura e funcionamento destes estabelecimentos educacionais.

            Constatou-se:

1 - que ocorreu um processo de fechamento de escolas das comunidades e concentração de alunos (as) em escolas pólo.

2 - Nestas escolas, em sua maioria localizadas, fora das comunidades quilombolas e das comunidades negras rurais também estudam crianças e jovens provenientes de assentamentos de reforma agrária, outros tipos de comunidades tradicionais e em alguns casos de sede de distritos.

 3 - Em algumas localidades houve a manutenção de escolas de 1ª a 4ª series, geralmente em classes multiseriadas.

4 – Situação das escolas localizadas nas comunidades

4.1 - as escolas (73%) apresentam mal estado de conservação da estrutura (pintura, telhado, janelas e sanitários);

4.2 – na maior parte das escolas a pintura, piso, quadro negro precisam de reparos;

4.3 – As carteiras, mesas e armários se encontram em mal estado de conservação,

4 4 - não possuem TV, DVD, antenas parabólicas, geladeira, fogão, e quando os têm, os mesmos não funcionam adequadamente;

4 5 – normalmente têm apenas uma sala de aula e apenas uma professora;

4.6 – são inexistentes ou escassos os materiais pedagógicos

4.7 – também são insuficientes a capacitação e o acompanhamento dos professores (as).

 

Situação das Escolas Pólo.

5.1 - As escolas pólos apresentam melhores condições físicas,

5.2 - os materiais pedagógicos, capacitação e assessoria pedagógica aos professores (as) também são insuficientes, sendo semelhantes aos das escolas localizadas nas comunidades. 

5.3 - Outra grave deficiência encontrada nas Escolas Pólo é o fato de algumas disciplinas como Física, Química e Matemática serem ministradas por professores (as) não formados nas mesmas.

 

Em decorrência do resultado da pesquisa, foram realizadas uma Audiência Publica e uma reunião de trabalho para discutir as condições de funcionamento das referidas escolas, havendo a participação da Secretaria Municipal de Educação, Executiva das Comunidades, representantes do Conselho Estadual de Educação, e equipe de apoio da Executiva Quilombola. Entretanto, ainda não foram tomadas medidas que pudessem solucionar os problemas constatados nas escolas.

Palavras chaves – comunidades quilombolas e comunidades negras rurais, escolas; Condições de funcionamento; Estado de Mato Grosso, Políticas Publicas.

  

INTRODUÇÃO      

            Nos textos da parte III Educação Formal e Informal nas Comunidades Negras Rurais do livro “Dimensões da Inclusão no Ensino Médio: Mercado de Trabalho, Religiosidade e Educação Quilombola Organizado por Maria Lúcia de Santana Braga, Edileuza Penha de Souza e Ana Flávia Magalhães Pinto (2006) são relatados as precariedades do funcionamento de escolas localizadas em comunidades negras rurais em diferentes estados brasileiros.

            O objetivo deste texto é apresentar as ações das comunidades quilombolas e das comunidades negras rurais do município de Poconé/MT para conseguirem melhorias da estrutura e funcionamento das escolas localizadas nas comunidades, ou que estudam alunos (as) provenientes dos agrupamentos quilombolas ou negros rurais. Secundariamente, visa apresentar os dados da pesquisa realizada em 2011/2012 nas escolas das comunidades quilombolas e comunidades negras rurais do município de Poconé/Estado de Mato Grosso,


O levantamento das condições destas escolas foi realizado pelos membros da Executiva da Coordenação das Comunidades Quilombolas e das Comunidades Negras Rurais de Poconé, com o auxilio da equipe de apoio ao Movimento Quilombola, formada por dois vereadores e do professor Antônio Eustáquio de Moura da Universidade do Estado de Mato Grosso/Campus de Cáceres e membro do Centro de Pesquisa e Museu de Antropologia, Etnografia, Arqueologia e Espeleologia da Unemat/Cáceres.

1 – Informações Gerais
            O município de Poconé está localizado na Baixada Cuiabana, sendo a sede do mesmo situada a 100 km de Cuiabá. É constituído por área do pantanal mato-grossense e pela região da morraria (área de cerrado e montanhosa).

            A economia do município é baseada na exploração de ouro, na criação de gado de corte, no turismo e na agricultura e criação de pequenos animais, destinados a subsistência das famílias.

            É um dos municípios mais antigos de Mato Grosso, tendo uma população em sua maioria de negra ou negra mestiça.

            Apresenta um dos mais altos índices de analfabetismo do Estado
         

2 - O Processo de Etnogenese da Identidade de Remanescente de Quilombo e de Territorialização das Comunidades Negras Rurais de Poconé

            De acordo com Pacheco de Oliveira o “Processo de Territorialização” é um movimento no qual um objeto político-administrativo [uma comunidade] vem a se transformar em uma coletividade organizada, formulando uma identidade própria, instituindo mecanismos de tomada de decisões e de representação, e reestruturando as suas formas culturais (1998, p.56).

            Segundo Pacheco de Oliveira o “processo de territorialização” por que passa uma comunidade implica em diversas mudanças tais como: 1) a criação de uma nova unidade sociocultural, mediante o estabelecimento de uma identidade étnica diferenciadora; 2) a constituição de mecanismos políticos especializados; 3) a redefinição do controle social sobre os recursos ambientais; 4) a reelaboração da cultura e da relação com o passado.” (1998, p. 55).

            O processo de territorialização se inicia com uma ação do Estado, geralmente através de legislação especifica relacionada ao segmento social que é objeto da ação estatal. 

            No caso das comunidades negras, o referido processo começou com a Constituição Brasileira de 1988, através do Artigo 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias- ADCT da Constituição Brasileira de 1988 e dos artigos 31 e 32 da referida Constituição.  No caso especifico do Estado de Mato Grosso, também, houve a influencia da Legislação Estadual - Artigo 33 do ADCT da Constituição Estadual de 1989 e da Lei 7.775/2002 (vide anexos). 

            Fruto deste cabedal jurídico administrativo inúmeras comunidades negras rurais e urbanas assumiram a Identidade Quilombola e passaram a reivindicar os direitos previstos pela legislação existente, este processo de etnogenese continua crescente, tanto a nível federal quanto estadual. Em 2000, a Fundação Cultural Palmares divulgou a existência de 743 (setecentos e quarenta e três) comunidades no Brasil, com localização em quase todos Estados Brasileiros, e no caso de Mato Grosso, a referida entidade indicou a existência de 2 comunidades (FUNDAÇÃO CULTURAL PALMARES, 2000, p. 19).  Estes dados foram ampliados no decorrer do tempo, de forma que segundo o Ministério de Desenvolvimento Social e de Combate a Fome – MDS a Fundação Cultural Palmares mapeou 3.524 (três mil e quinhentos e vinte e quatro) comunidades quilombolas no Brasil, mas outras fontes, no entanto, estimam que sejam 5 mil comunidades.  Em Mato Grosso, o Conselho de Promoção da Igualdade Racial de Mato Grosso- CEPIR/MT afirma que existem em torno de 160 comunidades quilombolas.

            Entretanto apesar da expressividade desses números, muito pouco esta sendo feito para a concretização das Políticas Publicas preconizadas pela Legislação Federal e o Programa Brasil Quilombola.  Um dos comprovantes desta lentidão é o numero de comunidades que receberam o Certificado de Comunidade Remanescente de Quilombo, emitido pela Fundação Cultural Palmares, o que habilita a comunidade a obter as Políticas Publicas destinadas as Comunidades Quilombolas.  Apenas 1.667 (hum mil e seiscentos e sessenta e sete) comunidades foram certificadas no Brasil e 65 (sessenta e cinco) no Estado de Mato Grosso (FUNDAÇÃO CULTURAL PALMARES, 2011). Outro indicador importante do descumprimento da Legislação referente aos direitos das comunidades quilombolas é a pequena porcentagem gasta dos recursos federais e estaduais destinados aos remanescentes de quilombos.  Esta situação faz com que a Legislação sobre os Quilombolas e as instituições destinadas ao cumprimento das mesmas sejam consideradas como sendo para “Inglês Ver”, o que no ditado popular significa existe, mas não funciona.

            Essa situação fica expressa nos gastos dos recursos federais destinados aos quilombolas. No texto Brasil: Governo resiste a reconhecer territorialidade quilombola, Ricardo Verdum (2011) analisa os gastos do Governo Federal nos diversos programas destinados aos quilombolas concluindo que nos atores institucionais envolvidos no Programa Brasil Quilombola, em 2008 e 2009 o valor liquidado não alcançou a marca de 24% do orçamento autorizado, repetindo resultado semelhante ao de anos anteriores, e que o Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) e o INCRA, utilizaram somente 13,26%  do recurso autorizado em 2008 e 15,02% do autorizado em 2009.

           

Em Poconé
- Foi criada a Executiva das Comunidades Negras Rurais e das Comunidades Quilombolas do município.

- Uma intensa reelaboração da cultura local, ressaltando as manifestações culturais da população do quilombo e suas “raízes afro-brasileiras”. Esse processo inclui a introdução de um componente cultural e político nas festas de santo tradicionais, bem como a criação de manifestações culturais específicas para ressaltar a cultura e a identidade quilombola, tais como a Feira Cultural no Quilombo Mata Cavalo e as comemorações do “20 de Novembro Dia da Consciência Negra” pelas comunidades negras rurais e comunidades quilombolas de Poconé .

- A reelaboração da memória social através da valorização das "lembranças dos mais velhos" e do “enquadramento da memória”.  Esse enquadramento da memória implica na escolha de depoentes autorizados pelas lideranças locais, como verdadeiros "especialistas da memória" encarregados de guardar e divulgar a história das comunidades. 

Na valorização e divulgação da memória social do quilombo e de suas comunidades negras, há disputas entre memórias” concorrentes, no caso com as memórias das famílias de sem terra, das famílias negras que não se consideram quilombolas, e das Comunidades ou famílias que recusam a identidade de Comunidade Negra Rural ou de Comunidade Quilombola.

- A valorização de aspectos relacionados à identidade de remanescente de quilombos vistos positivamente, sobretudo a cultura quilombola, a preservação da natureza e o caráter não-mercantil da terra.

    A busca constante de obter aliados nos movimentos sociais, órgãos governamentais e ONGs;

- A procura em “dar visibilidade as comunidades, suas condições de vida e suas reivindicações através dos meios de comunicação de massa, manifestações e eventos (exposições, festas etc.).

            Não existe um consenso geral entre as famílias quilombolas, existindo divergências internas na forma de luta e encaminhamentos gerais. Em Campina de Pedra, algumas famílias não aceitam a Identidade de Remanescente de Quilombo e se recusam a continuar participando do Movimento Quilombola, apesar de participarem de outras atividades da comunidade.

Efeitos da pesquisa realizada nas Comunidades Negras Rurais de Poconé
            A partir de 2003, com a realização de pesquisa sobre comunidades negras rurais quilombolas, realizada pela UNEMAT- Universidade do Estado de Mato Grosso, iniciou-se a ”visibilidade” e organização das comunidades rurais de Poconé, foram levantadas 32 comunidades, o que torna o município o detentor de maior número de comunidades negras rurais do Estado de Mato Grosso. Esta pesquisa intensificou o movimento de valorização da identidade étnica no município, de modo que inúmeras comunidades negras rurais assumiram-se como quilombolas, iniciando um movimento para terem visibilidade, serem empoderadas e obterem os direitos fundiários, culturais, econômicos e sociais previstos na legislação nacional e estadual.

            Em 2006/2007 a Executiva da Coordenação das Comunidades Negras Rurais e das Comunidades Quilombolas de Poconé (a partir deste momento denominada apenas de Executiva da Coordenação das Comunidades) iniciou, conjuntamente com o prof. Antonio Eustáquio de Moura/Unemat, campus de Cáceres, um levantamento sócio-econômico e cultural das comunidades.  Neste processo de levantamento de dados houve também a participação da FUNASA e o apoio da Prefeitura Municipal de Poconé, IBAMA, Câmara de Vereadores, Sindicato de Trabalhadores Rurais, Cooperativa de Pequenos Produtores Rurais (COMPRUP), UNEMAT e bancada de vereadores que apóiam o movimento quilombola.

            Esse levantamento resultou em diversos benefícios para as comunidades negras rurais e quilombolas, dentre os quais se destacam a implantação de sistema simplificado de acesso a água (poços artesianos e rede de distribuição de água) e construção de Kits sanitários em diversas comunidades.

            Constatou-se nesta investigação as precárias condições de funcionamento das escolas localizadas nas comunidades e/ou que atendem alunos (as) provenientes das mesmas. Tal fato já era denunciado pelas lideranças destes agrupamentos rurais.

            Em 2011, a Executiva da Coordenação das Comunidades resolveu colocar como uma de suas prioridades a melhoria das escolas situadas nas comunidades quilombolas e nas comunidades negras rurais ou que atendem alunos e alunas destas comunidades. Um dos primeiros passos foi levantar a situação das referidas escolas. 

 
3 - Resultados da pesquisa realizadas nas escolas
3.1 - Dados sobre as escolas localizadas nas comunidades e/ou que atendem alunos (as) provenientes das mesmas

Condições físicas das Escolas

A1) Condições dos prédios
            Nas escolas localizadas nas comunidades, constatou-se problemas nos telhados, piso interno, piso externo, pinturas, janelas, sanitários, instalações elétricas, quadro negro.

73 % das escolas necessitam de reformas, destas 37% precisam de grandes reformas.

Em 2011 a prefeitura realizou reformas em duas escolas, sendo uma feita com recursos e mão de obra próprios e outra através e convenio com o SENAI.

            Nas Escolas Pólos de Cangas e Faval as condições dos prédios são regulares, necessitando de pequenas reformas. A escola do Km 120 é nova e esta em boas condições, ao passo de que as instalações da Escola do Distrito de Chumbo são precárias (telhado, paredes, janelas, instalações elétricas etc.) necessitando ser inteiramente reconstruída.

Escolas localizadas nas comunidades (que continuam funcionando)
Estrutura (paredes, telhado, piso, portas, janelas, instalações elétricas)

            -Escolas de alvenaria (acima de 90%)

            - piso cimentado
            - constatamos que 73% das escolas apresentavam mal estado de conservação da estrutura (pintura, telhado, janelas)

            - sanitários sem condições de uso devido má conservação e/ou falta de água        encanada;
            - pisos externos

Mobiliário (carteiras, mesas e armários)
            - em mal estado de conservação.
            - grande numero imprestável devido a estragos diversos
            - insuficientes em algumas escolas

Estrutura
            - maioria tem apenas uma sala de aula
            - não tem (refeitório, despensa, biblioteca)

Quadro funcional das escolas
            - professora (1)
            - Auxiliar de serviços gerais (0)
            - vigia (0)
            - merendeira (0)

A maior parte das professoras (es) reside em outras localidades, não sendo de comunidades negras rurais ou quilombolas.

Cozinhas
            - quando existem são pouco aparelhadas, não possuem fogão, geladeira e/ou                    frízer, pias


Equipamentos auxiliares das atividades pedagógicas (vídeo cassete, Aparelho de DVD, televisão, data show, antena parabólica, Internet, mimeografo)
            - inexistentes
            - Mal conservados de forma que a maioria não funciona

Sistema de comunicação
            - Não possuem telefone
            - raras possuem Internet, mesmo assim muito lenta

Merenda
            - sem local adequado para armazenar
            - queixas de interrupção do abastecimento
            - Alimentos industrializados (macarrão, arroz, carne de jabá, bolacha e suco                     artificial;
            - apenas uma escola utilizava legumes e verduras provenientes da região (mas      não da nidade)

 
            - queixas em relação a merenda escolar
                        - As vezes escolas ficam sem alimentos para preparar a merenda;
                        - alguns alimentos, principalmente a carne seca, chegam mal conservados
                        - merenda não ter verduras, legumes e carne fresca

                         
           As escolas localizadas nas comunidades têm dificuldade de preparar merendas, pelo fato da maioria não disporem de cozinha, fogão e geladeira.  Na maioria delas a merenda é preparada em casas da comunidade pela professora, ou moradora das comunidades, pois as escolas não têm merendeira nem faxineira.

 
- Participação da comunidade no planejamento das ações e funcionamento das escolas.
As escolas, e as vezes a igreja local, são utilizadas para reuniões feitas na comunidade ou pela comunidade.
Entretanto é reduzido o poder da comunidade para colocar professoras, realizar alterações no currículo escolar ou calendário escolar
 

- Bibliografia e Materiais pedagógicos (brinquedos, mapas, DVDs, CDs etc.).
Na maioria das escolas localizadas nas comunidades os materiais pedagógicos eram poucos ou inexistentes.
As escolas pólo apesar de terem estes materiais, os mesmos são insuficientes, havendo problemas de colocá-los a disposição dos alunos (as) por falta de bibliotecas ou pessoas para trabalhar nas mesmas.

 
4 - Lutas das Comunidades Quilombolas e das Comunidades Negras Rurais para a melhoria da estrutura e do funcionamento das escolas que atendem alunos e alunas das comunidades.

            Apesar de haver leis que, direta ou indiretamente, podem respaldar a existência de escolas quilombolas bem estruturadas e com condições idéias de funcionamento (Legislação sobre Educação no Campo, Lei Estadual 7.775/2002, Lei 10.639/2003 e Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira etc.).   Estas legislações pouco tiveram efeitos nas escolas que localizadas nas comunidades quilombolas e nas comunidades negras rurais, ou escolas que atendem alunos (as) destas localidades.

            Em 2006 a Executiva da Coordenação das Comunidades fez diversas reivindicações para a melhoria da educação destacando as seguintes:

1 - Que seja revisto a atual localização das escolas pólos, visando diminuir as distâncias e o tempo das viagens dos alunos (as) até as escolas;

2 - Estruturar as escolas nas comunidades quilombolas para que os alunos (as) não precisem estudar em outras escolas;

3 – Fornecimento para as escolas quilombolas e as Escolas Pólos de materiais pedagógicos de qualidade específicos para a Educação no Campo e Educação de crianças e jovens quilombolas;

4 – Introduzir a informática (computadores, Internet etc.) nas escolas quilombolas e escolas pólos;

5 – Capacitar os professores (as) das Escolas Quilombolas e das Escolas Pólos para atuarem com a Educação no Campo e a Educação Quilombola;

6 – Garantir o acesso ao transporte escolar, com qualidade e periodicidade, aos estudantes das comunidades rurais;

7 – Dar condições aos jovens quilombolas de estudarem em cursos técnicos e cursos universitários.
    

            Grande parte das reivindicações era para as escolas municipais, entretanto, pouco foi realizado pela Prefeitura Municipal de Poconé para atender as referidas solicitações.

            Em 2011/2012, atendendo as queixas formuladas pelos moradores (as) das comunidades e suas lideranças a Executiva da Coordenação das Comunidades, com auxilio dos apoiadores (dois vereadores e o professor Antonio Moura da UNEMAT, realizaram um levantamento da estrutura e funcionamento das escolas localizadas nas comunidades quilombolas ou que atendem alunos (as) destas comunidades, constatando a precariedade das escolas.

            Em decorrência do resultado da pesquisa, foram realizadas uma Audiência Publica e uma reunião de trabalho para discutir as condições de funcionamento das referidas escolas, havendo a participação da Secretaria Municipal de Educação, Executiva das Comunidades, representantes do Conselho Estadual de Educação, e equipe de apoio da Executiva Quilombola.  Estas reuniões visavam apresentar os resultados da pesquisa e buscar soluções para os problemas encontrados, junto a Prefeitura Municipal, Governo do Estado e órgãos do Governo Federal.  Entretanto, ainda não foram tomadas medidas concretas que pudessem solucionar os problemas constatados nas escolas. 

            A causa principal desta demora é a posição da Prefeitura Municipal de Poconé, em não aceitar a participação das comunidades (entre elas as quilombolas e as negras rurais) no planejamento e execução de Políticas Publicas.  Isto reforça a posição de alguns membros da Executiva da Coordenação das Comunidades Quilombolas e Comunidades Negras Rurais de radicalizarem suas ações, solicitando ações do Ministério Publico Federal, e também realizando mobilizações das comunidades visando obter as melhorias solicitadas.

 

 

BIBLIOGRAFIA

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TEXTOS E DEBATES. Terras e Territórios de Negros no Brasil. Florianópolis: NUER, UFSC


ANEXOS
 

PAUTA DE REIVINDICAÇOES DAS COMUNIDADES NEGRAS RURAIS

QUILOMBOLAS DO MUNICIPIO DE POCONÉ/MT

 
             Nos moradores e moradoras das Comunidades Negras Rurais Quilombolas de Poconé/MT reunidos no 1º Encontro de Comunidades Negras Rurais Quilombolas do município de Poconé/MT, realizado no CAP/SESC Pantanal em Poconé em 29 de julho de 2006, e posteriormente na continuação deste Encontro durante as Comemorações da “Consciência Negra” realizada na Comunidade de Campina de Pedra em 25 de novembro de 2006, decidimos: 1- constituir uma Coordenação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas de Poconé, composta por representantes de todas as Comunidades Negras Rurais de Poconé; 2- elaborar uma pauta de reivindicações a serem negociadas com a Prefeitura Municipal de Poconé, Governo do Estado de Mato Grosso, órgãos federais e estaduais, ONGs, e Movimento Sociais; 3 - formar uma Coordenação Executiva das Comunidades Quilombolas de Poconé, encarregada de representar todas as Comunidades Negras Rurais Quilombolas de Poconé e fazer as negociações da Pauta de Reivindicações com os órgãos competentes.

1 - Pauta de Reivindicações:

1- Regularização Fundiária

Que seja agilizado os processos de reconhecimento das Comunidades Negras Rurais Quilombolas de Poconé, e a regularização fundiária de suas terras, recuperando as terras perdidas no passado e garantindo o uso das terras de acordo com a especificidade de cada comunidade.

 
 – Educação
2.1 - Que seja revisto a atual localização das escolas pólos, visando diminuir as distâncias e o tempo das viagens dos alunos (as) até as escolas;

2.2 - Estruturar as escolas nas comunidades quilombolas para que os alunos (as) não precisem estudar em outras escolas;

2.3 – Fornecimento para as escolas quilombolas e as Escolas Pólos de materiais pedagógicos de qualidade específicos para a Educação no Campo e Educação de crianças e jovens quilombolas;

2.4 – Introduzir a informática (computadores, Internet etc.) nas escolas quilombolas e escolas pólos;

2.5 – Capacitar os professores (as) das Escolas Quilombolas e das Escolas Pólos para atuarem com a Educação no Campo e a Educação Quilombola;

2.6 – Garantir o acesso ao transporte escolar, com qualidade e periodicidade, aos estudantes das comunidades rurais;

2.7 – Dar condições aos jovens quilombolas de estudarem em cursos técnicos e cursos universitários.

 
3 – Saúde
3.1 – capacitar os agentes de saúde, enfermeiros, médicos para trabalharem com a saúde dos afro-descendentes e trabalharem nas comunidades quilombolas;
3.2- Garantir o funcionamento dos postos de saúde nas comunidades quilombolas;
3.3 - Utilização de plantas medicinais nos tratamentos nos postos de saúde;


4 - Emprego e Renda
4.1 - Facilitar o acesso ao credito para produção para produtores, senhoras e jovens quilombolas;
4.2 – Possibilitar o acesso dos quilombolas ao Pronaf-ª

 

5 - Infraestrutura
5.1 – Possibilitar o acesso à energia elétrica (“Luz para Todos”) para as famílias quilombolas que ainda não têm acesso à energia elétrica;

5.2 – Possibilitar o acesso das comunidades quilombolas à água potável;
5.3 – Garantir recursos para a construção e melhoria de moradias das famílias quilombolas, respeitando as especificidades de cada comunidade e família;

5.4 – Construção de instalação sanitária (privadas) nas casas das comunidades quilombolas;

 

6 – Outras reivindicações
6.1 – Identificação e apoio às manifestações culturais quilombolas;
6.2 – Identificação e apoio às atividades econômicas das comunidades quilombolas;
6.3 – Apoio a organização das associações representativas das comunidades quilombolas;
6.4 – Criação dentro dos órgãos públicos de estrutura para tratar de assuntos relacionados às comunidades quilombolas;
6.5 – Que os órgãos públicos determinem e cumpram prazos para o cumprimento de atividades e ações para as comunidades negras rurais quilombolas

 


ANEXO 2 – Carta da Executiva Estadual Provisória das Comunidades Negras Rurais e Comunidades Quilombolas do Estado de Mato Grosso

Nós lideranças das comunidades negras rurais quilombolas do estado de Mato Grosso, Benedita Rosa da Costa da CONAQ – MT, Laura Ferreira da Silva da COEQ –MT (Coordenação Estadual Quilombola) e Maria Helena Tavares Dias também da COEQ-MT (Coordenação Estadual Quilombola),conhecemos o Ensino e Aprendizagem dos e nos Territórios Quilombolas do Estado de Mato Grosso,sabemos que esse processo se dá com dificuldades e com baixa qualidade nas comunidades quilombolas,visto que,os prédios onde os nossos educandos quilombolas buscam seus conhecimentos são de péssimas qualidades, os nossos professores não são assistidos com cursos de graduação, não há formação para eles, não tem materiais didáticos pedagógicos de qualidades, o calendário escolar não é diferenciado, na matriz curricular garante disciplinas que não identifica nossa origem enquanto afro-descendente e nem fortalece a nossa história auto afirmando nossa ancestralidade africana, as estradas são de péssimas condições do mesmo modo os transportes escolares, ambos dificultam a assiduidade do educandos nas aulas, assim, a educação quilombola está sendo feita por professores da cidade (Zona Urbana) que não conhecem e nem vivem a nossa realidade. Não há no setor educacional do estado uma gerencia muito menos uma coordenação que identifique, priorize e que possa acompanhar direcionar a implementar as Leis com ações afirmativas. Nós povo afro descendente, sabemos que os nossos ancestrais quando tirado a força do útero da mãe África marca o inicio de seus sofrimentos, vivenciando seus irmãos fragilizados morrerem de fome, sede e tendo os seus corpos jogados em alto mar mesmo antes da falência total, não tiveram o direito de falar a própria língua, de estudar, de exercer a sua cultura na religião, na culinária, nas vestimentas, na arte, não tiveram o direito de viver livremente, de expor o seu jeito simples e verdadeiro de ser, de mostrar a sua singela beleza, a sua competência, a sua habilidade, a sua criatividade, a sua originalidade, a espontânea vontade de manifestar os seus sentimentos de desejos, vontades, sonhos, carinho, respeito, felicidades, prosperidades, de cuidar, de zelar, de proteger, de intensamente amar e ser amado, porém, foram escravizados, chicoteados, amarrados em troncos, foram obrigados somente a servirem os seus senhores, foram obrigados a trabalhar e morar em condições desumanas, a nascerem de suas almas, de perderem suas identidades, para servirem com trabalhos braçais, com suores dos rostos e com o sangue derramado, os novos continentes, os novos países, novas nações, conseqüentemente deu início a uma outra história, na qual, o negro foi antagonista passivo cooptado por luso-portugueses com ideologias eurocêntricas que descaracterizou o povo negro e desvalorizou sua etnia racial. Tudo isso, para tornar o universo maior, mais extenso e mais populoso, onde o homem poderia ter mais espaços para dominar e empoderar seu egoísmo e desrespeito pelo seu semelhante. É evidente que a origem, a fundação, o desenvolvimento e a ascensão sócio-econômico-político e cultural do Brasil teve como contribuição a cultura das etnias raciais africanas e das etnias raciais indígenas que já habitavam esta nação e que, hoje em extinção por não ser aceitável, belo e agradável. A Constituição da República Federativa do Brasil garante a Educação por direito,contudo não garantiu uma Educação Diferenciada para o povo negro,não reconheceu o povo africano como protagonista historicamente da formação do povo brasileiro.Por isso,queremos que sejamos reconhecidos e valorizados como protagonistas de nossas histórias e das histórias de nosso País.Solicitamos que a educação nos quilombos sejam diferenciadas e de qualidades. No entanto, fomos delegadas enquanto lideranças quilombolas pelo nosso povo, para participarmos do CONAPEE (Conferencia de Avaliação do Plano Estadual de Educação) no período de 15 a 18 de novembro de 2011, no Hotel Fazenda Mato Grosso em Cuiabá - MT, na qual, apresentamos Moção de apoio de que  1°: a Educação Escolar Quilombola passe a ser considerada uma modalidade  de ensino ( Modalidade de Educação Quilombola ), 2°: que seja criado no setor de diversidade da SEDUC-MT, um setor especifico de Educação Quilombola. Este documento, foi entregue nas mãos da senhora Rosa Neide que estava Secretária estadual de Educação. Esta Moção foi entregue, também, ao Conselho Estadual de Educação (CEE/MT), na 4ª Reunião Extraordinária de Plenária, realizada no dia 13 de dezembro de 2011 que teve como pauta o Processo Educativo sobre a História do Negro e a Cultura Negra nos Quilombos de Mato Grosso. Após a explanação e amplo debate,o colegiado Manifestou apoio e  deliberou que fosse expedido ofício e cópia da referida Moção ao senhor Ságuas Moraes Sousa que está Secretário Estadual de Educação,solicitando providências urgentes da Seduc/MT,com cópia também para o presidente da Assembléia Legislativa do estado de Mato Grosso,senhor José Rivas.Contudo, para que a nossa solicitação torne discussão nacional no Fórum do Conselho Nacional de Educação,no Conselho Nacional de Educação,na Fundação Cultural Palmares e na SEPPIR,para que seja fortalecida,apoiada e aprovada pela CONAQ Nacional,para que o nosso povo quilombola tenha uma educação de qualidade por direito.Evidenciamos e protocolamos aqui a nossa pauta de reivindicação,considerando a Lei Estadual 7.775,de 26 de novembro de 2002,a Lei Federal 10.639/2003,a Lei 11.645/2008 e as propostas da CONAE/2010 que tratam da Educação Escolar Quilombola.Por isso,solicitamos da CONAQ nacional apoio para que possamos fortalecer a nossa reivindicação e que ela possa ser consolidada e  tenha visibilidade,tornando pauta de discussão nacional.Encaminhamos cópia da Moção de Apoio e do ofício que o senhor Aguinaldo Garrido, presidente do Conselho Estadual de Educação (CEE/MT ) expediu ao senhor Secretário Estadual de Educação.

 

Lei Estadual 7.775 de 26 de Novembro 2002
 Lei que institui o Programa de Resgate Histórico e Valorização das Comunidades Remanescentes de Quilombos em Mato Grosso,

Art. 1º - Tendo como base o art. 68 das Disposições Constitucionais Transitórias da Constituição da República Federativa do Brasil, fica instituído o Programa de Resgate Histórico e Valorização das Comunidades Remanescentes de Quilombos em Mato Grosso, com o objetivo de desenvolver as seguintes atividades:
            - identificar e demarcar os territórios ancestrais e as terras remanescentes de quilombos no Estado de Mato Grosso;
            - promover o levantamento e a legalização dessas áreas, por meio do INTERMAT;
            - promover o levantamento histórico e cultural dessas comunidades por meio da Secretária de Estado de Cultura e da UNEMAT;
            - identificar projetos culturais para enquadramento nas leis de incentivo à cultura;
            - apoiar a implementação de projetos de desenvolvimento comunitário, agrário e social;
            - abrir linhas de credito para o turismo cultural e ecológico, a fim de viabilizar as comunidades remanescentes.

Art. 2º O Estado, a partir do levantamento histórico e cultural dessas comunidades, incluirá no currículo escolar obrigatório de Mato Grosso o estudo da história dos quilombos em Mato Grosso e das suas características culturais.

Art. 3º VETADO

Art. 4º Esta lei entra em vigor na data de sua publicação, revogadas as disposições em contrário.