Processo de territorialização das Comunidades do Quilombo Mata Cavalo e Comunidade Campina de Pedra, nos Municípios de Nossa Senhora do Livramento e Poconé – MT
Antônio Eustaquio de Moura
Professor Doutor da UFMT
Apoio- Fundação de Amparo à Pesquisa de Mato Grosso – FAPEMAT
No Estado de Mato Grosso são
relacionadas 160 comunidades rurais consideradas como comunidades
quilombolas. Destas, apenas, 65 são reconhecidas como Comunidades
Remanescentes de Quilombos pela Fundação Cultural Palmares, mas nenhuma
recuperou toda a terra expropriada no passado.
Buscaremos analisar a luta pela terra travada pela Comunidade Campina de Pedra que busca territorializar-se utilizando a Legislação Federal e a Estadual e a luta das comunidades negras rurais do Complexo Sesmaria Boa Vida - Quilombo Mata Cavalo, as quais para obterem seus direitos e territórios, utilizam, também a ocupação das terras que lhes foram usurpadas no passado. Palavras Chaves - Comunidades Quilombolas; territorialização; direitos étnicos; Mato Grosso/Brasil
Buscaremos analisar a luta pela terra travada pela Comunidade Campina de Pedra que busca territorializar-se utilizando a Legislação Federal e a Estadual e a luta das comunidades negras rurais do Complexo Sesmaria Boa Vida - Quilombo Mata Cavalo, as quais para obterem seus direitos e territórios, utilizam, também a ocupação das terras que lhes foram usurpadas no passado. Palavras Chaves - Comunidades Quilombolas; territorialização; direitos étnicos; Mato Grosso/Brasil
1 - Breve Histórico das Comunidades
1. 1 - Comunidade Campina de Pedra 2
Está situada nas margens da
rodovia MT 451 (Estrada do COENGE), no município de Poconé/MT, a
aproximadamente 100 km de Cuiabá, capital do Estado e 51 km da cidade de
Poconé (sede do município). Possui 126 hectares
de terras e 28 famílias com uma população estimada de 112 pessoas.
Existem, também, outros parentes residindo em outras localidades, totalizando
20 famílias.
De acordo com o Relatório
Técnico de Identificação e Delimitação Comunidade de Remanescente de
Quilombos Campina de Pedra/Poconé – MT as terras da comunidade fazem
parte da Sesmaria Formiga, que possuía uma légua de frente e outra de
fundos, sendo localizada nas cabeceiras do ribeirão Formiga. A mesma foi
solicitada por Manoel Martins Colosso e seu irmão Tomé Joaquim Ferreira
1 Engenheiro Agrônomo (UFV), Doutor em Ciências Sociais (UNICAMP).
Professor da Universidade do Estado de Mato Grosso – UNEMAT, campus de
Cáceres, MT. Tel. 65 92013897 eustaquiodemoura@yahoo.com.br
2 O uso do termo “comunidade” não significa ausência de conflitos internos e de diferenciação social.
Nestes grupos sociais existem
conflitos internos, diferenciação social baseada em aspectos econômicos
(área de terra, quantidade de gado, outras rendas não agropecuárias
etc.) e em aspectos sociais (facilidade de acesso aos mediadores
sociais, órgãos governamentais, imprensa etc.).
2
...] Com a presente suplica para que V. Exa. Se digne com o seu
paternal Amor deferir aos Suplicantes concedendo-lhes a Sesmaria e a
Licença para mudar as próprias moendas e lambiques da Chácara para as
novas roças para os suplicantes se arrancharem e utilizarem-se do
serviço dos escravos inferiores, e poderem a custa de seu trabalho
sustentar suas famílias, e escravos de lavras como sempre costumaram.
(RELATÓRIO TÉCNICO..., 2009, p.64)
A solicitação foi concedida aos “suplicantes” em 1791.
De
acordo com o INCRA, na elaboração da pesquisa documental visando a
elaboração do Relatório Técnico de Identificação e Delimitação
Comunidade de Remanescente de Quilombos Campina de Pedra/Poconé – MT
foram encontrados nos arquivos da Paróquia Nossa Senhora do Rosário, em
Poconé
[...] registros de vários
antigos moradores da Formiga, que são parentes diretos daqueles que hoje
habitam a Campina de Pedra, inclusive refazendo a linha que os leva aos
escravos que ocuparam a região no século XIX, tal como Felix Gonçalves
Netto, ao que tudo indica pai de Benedito Mendes Gonçalves, de quem
descendem todos os atuais quilombolas de Campina de Pedra [...] (2009,
p.66)
A
Sesmaria Formiga era conhecida e povoada deste o século XIX e em seu
interior haviam as localidades Boa Vista, Fazenda Velha, Cachoeira,
Capão da Abóbora, Várzea Grande [e Campina de Pedra] (RELATÓRIO
TÉCNICO..., 2009, p.67)
A
comunidade Campina de Pedra é formada por famílias descendentes de
Benedito Mendes Gonçalves casado com D. Benedita Mendes Silva, o qual
após a viuvez, casou-se com Clara Escolástica da Silva, ambas eram
filhas de Silvério Bispo da Silva. Os filhos e filhas do casal foram
formando famílias, as quais moravam próximas umas das outras, formando
um pequeno arraial, em um local da Sesmaria Formiga, denominado
“Cachoeira”.
A
condição de escravo de Benedito Mendes Gonçalves e de Silvério Bispo da
Silva, “raízes” (antepassados) das famílias de Campina de Pedra foi
comprovada pela pesquisa documental do INCRA, através do registro de
casamento de Felix Gonçalves Netto, pai de Benedito Mendes Gonçalves e
através da certidão de batismo de uma das filhas de Silvério Bispo da
Silva.
3 (vide paginas 66 e 71 e 72 do
Relatório Técnico de Identificação e Delimitação Comunidade de
Remanescente de Quilombos Campina de Pedra)
Mesmo após a abolição da escravatura, as famílias negras continuaram na localidade da Formiga, na condição de libertos.
De acordo com a memória coletiva
da comunidade as terras de que dispunham mediam em torno de 1.500 (mil e
quinhentos) hectares. A área era utilizada “em comum”, as famílias
moravam na região da Cachoeira e faziam suas plantações, principalmente,
na localidade denominada “Campina de Pedra”, onde a terra era mais
fértil.
Plantavam, principalmente,
arroz, milho, feijão que eram utilizados para subsistência das famílias,
e as poucas cabeças de gado eram criadas soltas no
cerrado.
Tempo da Medição, tempo da perda de terras
A
situação da comunidade mudou, no inicio da década de 1960, quando
Leonildo Pereira Leite, morador na Fazenda Japão, vizinha a comunidade,
resolveu fazer medição de suas terras. Neste processo de medição,
Leonildo propôs e conseguiu que as famílias da comunidade saíssem da
região da “Cachoeira” e fossem para a “Campina de Pedra”. Neste
processo, denominado pelos moradores locais de “permuta”, cada família
ficou com 60m (sessenta) hectares. Ocupando uma área menor do que tinham
no passado.
Após a “permuta” houve a saída
de varias famílias da área, havendo venda de terras para fazendeiros e
sitiantes. São varias as causas destes fatos, sendo a mais mencionada à
escassez de água no período da seca.
Outros fatores, como o fato da
terra ter sido transformada em mercadoria e a transformação das cidades
em locais onde as famílias poderiam melhorar a vida, também podem ter
contribuído para a venda de terras e ida de famílias para outras
localidades
Os principais locais para onde as famílias da comunidade mudaram foram Várzea Grande, Cáceres e Poconé
1.2 - O Complexo (Gleba) Sesmaria Boa Vida Quilombo Mata Cavalo3
3
O Complexo Sesmaria Boa Vida – Quilombo Mata Cavalo, também é
denominado de Gleba Sesmaria Boa Vida - Quilombo Mata Cavalo, Gleba Mata
Cavalo, Quilombo Mata Cavalo, ou simplesmente Mata 4 Esta situado no
município de Nossa Senhora do Livramento/ Estado de Mato Grosso, à
aproximadamente 40 km de Cuiabá e à 8 Km da cidade de Nossa Senhora do
Livramento. A área estimada da gleba é de 13.627 hectares, o numero de
famílias na área e fora da mesma é aproximadamente 400 (quatrocentas).
A Gleba é formada pela
Comunidade Remanescente do quilombo Mata Cavalo, constituída pelas
localidades do Ourinhos/Ponte da Estiva, Mata- Cavalo de Baixo,
Mata-Cavalo de Cima e Mutuca onde residem as famílias negras; pela Gleba
União habitada por famílias de sem terras4; região do Aguassú (onde
vivem famílias remanescentes e famílias sem terra) e por área em poder
de sitiantes e fazendeiros.
Os negros de Mata Cavalo
obtiveram as suas terras através de doação feita pelo senhorio, em
setembro de 1883, de parte da Sesmaria Boa Vida. E também, no final do
século XIX , por meio de compras de pedaços do restante da referida
sesmaria.
Entretanto apesar dos mesmos
terem os documentos da doação e de compras de terras na área, eles
passaram a sofrer pressões para saírem das mesmas, mas conseguiram êxito
na resistência às primeiras tentativas de expropriação de suas terras.
.De acordo com a memória
coletiva dos negros da gleba, o principal caso de expropriação de suas
terras foi executado, nas primeiras décadas do século XX, por Manoel
Monteiro (político do município e dono de um pequeno pedaço de terra na
gleba).
A maioria das famílias negras da
Gleba saiu de suas terras devido às ameaças e violências, algumas
abandonaram a terra, outras venderam suas áreas para Manoel Monteiro, ou
para outros fazendeiros que adquiriram terras vendidas por Manoel
Monteiro.
As tentativas de expropriação
das terras das famílias negras do complexo Mata-Cavalo foram continuas,
tendo iniciado logo após a doação da Cavalo. Esses nomes variam de
acordo com a pessoa ou instituição que os utilizam e no contexto em que é
utilizado.
4 As famílias de sem terras não tem parentesco com os antigos moradores negros da gleba Mata Cavalo.
Estas famílias não são ligadas
ao Movimento Nacional dos Sem Terras/MST. Nos primeiros meses de
ocupação da gleba, formaram uma associação (ASTELIVRA). Posteriormente
passaram a se autodenominarem de pequenos produtores rurais, mas
continuam a serem denominados de Sem Terras, pelos negros da gleba e
pela sociedade inclusiva.
5 área e concretizado na
primeira metade do século XX. Algumas famílias negras resistiram ao
processo de grilagem, e conseguiram manter parte das terras e permanecer
na área. Alguns moradores permaneceram na área como trabalhadores dos
fazendeiros. A maioria das famílias perdeu suas terras, e se mudaram
para Cuiabá, Várzea Grande e Nossa Senhora do Livramento.
2
– O Processo de luta pela terra nas comunidades Negras do Complexo
Sesmaria Boa Vida – Quilombo Mata Cavalo e na Comunidade Campina de
Pedra
As Comunidades Negras Rurais
Complexo Sesmaria Boa Vida – Quilombo Mata Cavalo e a Comunidade Campina
de Pedra ao lutarem por suas terras iniciaram, a partir dos anos 1990,
um processo de mudança de identidade social, passando a se identificarem
como Comunidade Remanescente de Quilombo. Entretanto, chegaram a
etnogenese dessa identidade étnica por diferentes caminhos.
2.1
- No Complexo Sesmaria Boa Vida - Quilombo Mata Cavalo O motivo das
comunidades negras de Mata Cavalo se auto-identificarem como quilombolas
foi a luta pela retomada de suas terras. Algumas famílias negras
resistiram ao processo de expropriação de suas terras, tendo êxito
parcial em alguns locais, principalmente, na Comunidade da Mutuca, onde
conseguiram manter parte dá área.
Após a saída da maior parte das
famílias da área, foi iniciado um processo de retorno à gleba através da
aquisição de terras. A memória coletiva foi um grande sustentador do
processo de retomada da terra, pois as famílias sempre lembravam e
passavam para seus descendentes as lembranças da época em que eram donos
da terra e essas lembranças eram tidas como de fartura e de
solidariedade étnica e vicinal. Além disso, sempre lembravam as formas
ilegais e as vezes violentas utilizadas para expropriá-los.
Os cemitérios e os restos ou
locais das antigas casas eram utilizados como “lugares da memória”. As
Festas de Santo realizadas pelas famílias que moravam na gleba ou na
Casa São Benedito, localizada na Cidade de Nossa
Senhora do Livramento/MT, eram
momentos de ativação da memória social e de reativação e fortalecimento
dos laços étnicos e de parentesco.
Na década de 1980 e inicio de
dos anos 1990, as famílias negras expropriadas da terra realizaram
varias tentativas, sem sucesso, de retomada da área através de
ocupações. Estas tentativas fracassadas redundaram em uma aliança das
mesmas com um segmento do Movimento dos Sem Terras (não ligado ao
Movimento dos Trabalhadores Sem Terra - MST). Juntos, em 1996, iniciaram
um processo de ocupação da gleba, criando acampamentos e enfrentando os
fazendeiros e sitiantes não negros moradores na área.
Nesse processo de luta pela
terra as famílias da Gleba, através de mediadores sociais, aliados ao
movimento, descobriram a Legislação Brasileira referente aos direitos
fundiários dos Remanescentes de Quilombos. Iniciou-se, assim, um
processo de etnogenese da Identidade de Remanescente de Quilombo.
Utilizando dessa identidade e da
Legislação Nacional, passaram a reivindicar seus direitos e ações do
Governo Federal e Estadual. Visando a efetivação dos seus direitos,
romperam a aliança com as famílias Sem Terras, e realizaram inúmeras
idas à Cuiabá, buscando ações dos órgãos governamentais, apoio de
movimentos sociais e a visibilização de suas lutas e reivindicações
através dos meios de comunicação de massa.
2.2 - Na Comunidade Campina de Pedra
A busca em retomar as terras,
que tinham no passado, também foi o fator mobilizador da etnogenese da
Identidade de Comunidade Remanescente de Quilombo na Comunidade Campina
de Pedra. Visando reaver suas terras já haviam, sem êxito, tentado
utilizar a técnica de fazerem acampamento junto à área reivindicada, uma
tática semelhante à utilizada pelas famílias do MST em outras
localidades.
De acordo com depoimentos de
lideranças da comunidade, eles tiveram acesso à informações sobre a
Identidade de Remanescente de Quilombo e sobre os direitos relacionados à
essa identidade, através de pesquisa e, posteriormente através dos
trabalhos de extensão, realizados por um professor da Universidade do
Estado de Mato Grosso. Através de reuniões, palestras, filmes, visitas à
outras comunidades, e contatos com órgãos governamentais,
gradativamente, as lideranças da comunidade, dentre as identidades
disponíveis, optaram por serem remanescentes de quilombos, em vez de
pequeno produtor rural, trabalhadores rurais ou negros rurais. O
principal motivo desta auto-identificação foi constatação que poderiam
utilizar a referida identidade como meio de reaver suas terras, bem como
obter melhorias para a comunidade.
As lideranças de Campina de
Pedra cientes de que a comunidade, sozinha, não conseguiria a atenção
dos órgãos públicos encarregados de implementarem a Legislação Federal
(Artigo 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias- ADCT da
Constituição Brasileira de 1988 e dos artigos 215 e 216 da referida
Constituição) e da Legislação Estadual (Artigo 33 do ADCT da
Constituição Estadual de 1989 e da Lei 7.775/2002) passaram a serem
divulgadores do Movimento Quilombola em Poconé conseguindo a
participação ativa de expressiva parcela dentre os 36 (trinta e seis)
agrupamentos negros rurais existentes no município.
3
– O processo de Territorialização das Comunidades Negras do Complexo
Sesmaria Boa Vida – Quilombo Mata Cavalo e da Comunidade de Campina de
Pedra
De acordo com Pacheco de
Oliveira o “Processo de Territorialização” é um movimento no qual um
objeto político-administrativo [uma comunidade] vem a se transformar em
uma coletividade organizada, formulando uma identidade própria,
instituindo mecanismos de tomada de decisões e de representação, e
reestruturando as suas formas culturais (1998, p.56).
Segundo Pacheco de Oliveira o
“processo de territorialização” por que passa uma comunidade implica em
diversas mudanças tais como: 1) a criação de uma nova unidade
sociocultural, mediante o estabelecimento de uma identidade étnica
diferenciadora; 2) a constituição de mecanismos políticos
especializados; 3) a redefinição do controle social sobre os recursos
ambientais; 4) a reelaboração da cultura e da relação com o passado.”
(1998, p. 55).
O processo de territorialização
se inicia com uma ação do Estado, geralmente através de legislação
especifica relacionada ao segmento social que é objeto da ação estatal.
No caso das comunidades negras, o referido processo começou com a
Constituição Brasileira de 1988, através do Artigo 68 do Ato das
Disposições Constitucionais Transitórias- ADCT da Constituição
Brasileira de 1988 e dos artigos 31 e 32 da referida Constituição. No
caso especifico do Estado de Mato Grosso, também, houve a influencia da
Legislação Estadual - Artigo 33 do ADCT da Constituição Estadual de 1989
e da Lei 7.775/2002. Fruto deste cabedal jurídico administrativo
inúmeras comunidades negras rurais e urbanas assumiram a Identidade
Quilombola e passaram a reivindicar os direitos previstos pela
legislação existente, este processo de etnogenese continua crescente,
tanto a nível federal quanto estadual. Em 2000, a Fundação Cultural
Palmares divulgou a existência de 743 (setecentos e quarenta e três)
comunidades no Brasil, com localização em quase todos Estados
Brasileiros, e no caso de Mato Grosso, a referida entidade indicou a
existência de 2 comunidades (FUNDAÇÃO CULTURAL PALMARES, 2000, p. 19).
Estes dados foram ampliados no decorrer do tempo, de forma que segundo o
Ministério de Desenvolvimento Social e de Combate a Fome – MDS a
Fundação Cultural Palmares mapeou 3.524 (três mil e quinhentos e vinte e
quatro) comunidades quilombolas no Brasil, mas outras fontes, no
entanto, estimam que sejam 5 mil comunidades. Em Mato Grosso, o Conselho
de Promoção da Igualdade Racial de Mato Grosso- CEPIR/MT afirma que
existem em torno de 160 comunidades quilombolas.
Entretanto apesar da
expressividade desses números, muito pouco esta sendo feito para a
concretização das Políticas Publicas preconizadas pela Legislação
Federal e o Programa Brasil Quilombola. Um dos comprovantes desta
lentidão é o numero de comunidades que receberam o Certificado de
Comunidade Remanescente de Quilombo, emitido pela Fundação Cultural
Palmares, o que habilita a comunidade a obter as Políticas Publicas
destinadas as Comunidades Quilombolas. Apenas 1.667 (hum mil e
seiscentos e sessenta e sete) comunidades foram certificadas no Brasil e
65 (sessenta e cinco) no Estado de Mato Grosso (FUNDAÇÃO CULTURAL
PALMARES, 2011). Outro indicador importante do descumprimento da
Legislação referente aos direitos das comunidades quilombolas é a
pequena porcentagem gasta dos recursos federais e estaduais destinados
aos remanescentes de quilombos. Esta situação faz com que a Legislação
sobre os Quilombolas e as instituições destinadas ao cumprimento das
mesmas sejam consideradas como sendo para “Inglês Ver”, o que no ditado
popular significa existe, mas não funciona. Essa situação fica expressa
nos gastos dos recursos federais destinados aos quilombolas. No texto
Brasil: Governo resiste a reconhecer territorialidade quilombola,
Ricardo Verdum (2011) analisa os gastos do Governo Federal nos diversos
programas destinados aos quilombolas concluindo que nos atores
institucionais envolvidos no Programa Brasil Quilombola, em 2008 e 2009 o
valor liquidado não alcançou a marca de 24% do orçamento autorizado,
repetindo resultado semelhante ao de anos anteriores, e que o Ministério
do Desenvolvimento Agrário (MDA) e o INCRA, utilizaram somente 13,26%
do recurso autorizado em 2008 e 15,02% do autorizado em 2009.
Nas Comunidades Negras do
Complexo Sesmaria Boa Vida- Quilombo Mata Cavalo e na Comunidade Campina
de Pedra no Processo de Territorialização ocorreu:
- A institucionalização do
quilombo na forma de associação. Em Mata Cavalo, foi constituída a
Associação Sesmaria Boa Vida – Quilombo Mata Cavalo, uma associação
geral de todos os quilombolas da área. Em Poconé foi criada a Executiva
das Comunidades Negras Rurais e das Comunidades Quilombolas do
município.
- Uma intensa reelaboração da
cultura local, ressaltando as manifestações culturais da população do
quilombo e suas “raízes afro-brasileiras”. Esseprocesso inclui a
introdução de um componente cultural e político nas festas de santo
tradicionais, bem como a criação de manifestações culturais específicas
para ressaltar a cultura e a identidade quilombola, tais como a Feira
Cultural no Quilombo Mata Cavalo e as comemorações do “20 de Novembro
Dia da Consciência Negra” pelas comunidades negras rurais e comunidades
quilombolas de Poconé .
- A reelaboração da memória
social através da valorização das "lembranças dos mais velhos" e do
“enquadramento da memória”. Esse enquadramento da memória implica na
escolha de depoentes autorizados pelas lideranças locais, como
verdadeiros "especialistas da memória" encarregados de guardar e
divulgar a história das comunidades. Na valorização e divulgação da
memória social do quilombo e de suas comunidades negras, há disputas
entre memórias” concorrentes, no caso com as memórias das famílias de
sem terra, das famílias negras que não se consideram quilombolas, e das
Comunidades ou famílias que recusam a identidade de Comunidade Negra
Rural ou de Comunidade Quilombola.
- A valorização de aspectos
relacionados à identidade de remanescente de quilombos vistos
positivamente, sobretudo a cultura quilombola, a preservação da natureza
e o caráter não-mercantil da terra.
– A busca constante de obter aliados nos movimentos sociais, órgãos governamentais e ONGs;
- A procura em “dar visibilidade
as comunidades, suas condições de vida e suas reivindicações através
dos meios de comunicação de massa, manifestações e eventos (exposições,
festas etc.).
Duas grandes diferenças aparecem
nas lutas desenvolvidas pelas comunidades quilombolas do Complexo
Sesmaria Boa Vida – Quilombo Mata Cavalo e pela Comunidade Campina de
Pedra. Em Mata Cavalo as comunidades não ficam atreladas aos marcos
legais previstos pelas Legislações vigentes, em alguns casos fizeram e
fazem manifestações e ocupações. No caso de Campina de Pedra se destaca á
busca da comunidade em estender o movimento para as outras comunidades,
não ficando atrelada aos seus próprios limites. Outra especificidade é
não se envolver em conflitos com os atuais proprietários das terras que
possuíam no passado.
Nas duas localidades não existe
um consenso geral entre as famílias quilombolas, existindo divergências
internas na forma de luta e encaminhamentos gerais. No Complexo Sesmaria
Boa Vida Quilombo Mata Cavalo existem divergências e disputas tanto
entre as comunidades, quanto entre suas lideranças. No caso de Campina
de Pedra algumas famílias não aceitam a Identidade de Remanescente de
Quilombo e se recusam a continuar participando do Movimento Quilombola,
apesar de participarem de outras atividades da comunidade.
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