sexta-feira, 18 de maio de 2012
DUAS VERSÕES DA MESMA HISTÓRIA: A HISTÓRIA DA COMUNIDADE DO TAQUARAL, CÁCERES – MT.
DUAS VERSÕES DA MESMA HISTÓRIA: A HISTÓRIA DA COMUNIDADE DO TAQUARAL, CÁCERES – MT.
Ana Claudia Martins dos Santos
Antônio Eustáquio de Moura
Este Trabalho tem como fonte uma pesquisa de iniciação científica desenvolvida dentro do Projeto de pesquisa “Levantamento das comunidades negras rurais dos municípios de Nossa Senhora do Livramento, Poconé, Barra dos Bugres e Cáceres”, realizado na Universidade do Estado de Mato Grosso-UNEMAT/campus de Cáceres, coordenado pelo prof. Antonio Estáquio de Moura e financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Mato Grosso-FAPEMAT
Essa pesquisa tinha o objetivo de levantar a história da comunidade negra rural do Taquaral/Cáceres – MT, e, secundariamente, fornecer aos moradores (as) da comunidade informações sobre os direitos jurídicos, culturais e econômicos previstos na Legislação Federal e Estadual para as comunidades remanescentes de quilombos, pois Taquaral esta envolvida em uma luta pela terra e deverá fazer escolha da identidade social, visando direcionar a solução desse conflito fundiário. Tendo a possibilidade de optar pela identidade de pequeno produtor rural ou população tradicional (marroquianos) ou remanescentes de quilombos.
Estudar as comunidades tradicionais é uma forma de dar voz a experiência vivida por essas pessoas, que tem sido de certa forma ignorada pela historia oficial. A história de vida das pessoas que estão na comunidade do Taquaral não são objetos de estudo da “História Oficial”, tida como história dos “vencedores”, que não se ocupa com a experiência dos povos indígenas, populações tradicionais, remanescentes de quilombos, sesmeiros etc..
A opção do projeto foi pelos excluídos, pela “Historia Vista de Baixo”, como nos apresenta Jim Sharpe:
Mas a importância da historia vista de baixo é mais profunda [...]. Ela proporciona também um meio para reintegrar sua historia aos grupos sociais que podem ter pensado tê-la perdido, ou que nem tinha conhecimento da existência de sua história.
Seguindo esse ponto de análise de Jim Sharpe, trabalhar com a história da comunidade do Taquaral é estudar as experiências das pessoas comuns, contribuindo diretamente para que se vejam como sujeitos ativos e importantes na formação da localidade onde vivem e parte integrante da historia de Cáceres.
Uma das grandes dificuldades em se trabalhar com a memória é que quanto mais afastado do tempo presente for, mais restritas serão as variedades de fontes, pois as pessoas envolvidas no acontecimento podem não estar mais vivas ou as lembranças ir apenas até determinado período.
Mas o historiador oral tem problemas óbvios ao tratar com pessoas que morreram antes de serem gravadas ou cuja memória foi perdida por seus sucessores, e o tipo de testemunhos direto que pode obter é negado aos historiadores dos períodos mais antigos.
Deparamo-nos com esse fato, sendo que não estamos levantando a historia da comunidade do Taquaral como um todo, pois as lembranças das pessoas que vivem na comunidade chegam ao máximo até o bisavô e para obter todos os dados precisaríamos de mais tempo e recursos, o que um projeto de iniciação cientifica não conseguiria suprir.
É possível que essa dificuldade em estar relembrando o passado não seja apenas um branco na memória. Muitas vezes, só é lembrado aquilo que naquele momento é considerado importante para a comunidade. As pessoas relacionam o seu passado com as necessidades do seu presente e com aquilo que desejam construir para o futuro. Quanto à dificuldade ao longo de uma entrevista Pollack coloca:
Assim, as dificuldades e bloqueios que eventualmente surgiram ao longo de uma entrevista só raramente resultavam de brancos da memória ou de esquecimento, mas de uma reflexão sobre a própria utilidade de falar e transmitir seu passado.
O nosso objeto de estudo é a comunidade do Taquaral, localizada a 22 km da cidade de Cáceres, na BR 343 que liga o município de Cáceres a Barra dos Bugres. O município de Cáceres pertence à mesorregião Centro-sul mato-grossense e a microrregião Alto Paraguai, tendo a extensão territorial de 24.398 Km², sendo seu contingente populacional de 84.175 (IBGE/2007).
Essa localidade é denominada como Morraria, por estar dentro da Província Serrana.
Na área compreendida entre os municípios de Cáceres e Porto Estrela – MT está parte da Província Serrana, nela encontra-se uma região conhecida como Morraria. Segundo seus próprios moradores o lugar tem esse nome devido às seqüências de morros que apresenta a região e é entre esses morros, nas chamadas bocainas, que esse povo que se autodenomina morroquiano, habita.”
A comunidade está inserida dentro de uma área muito maior, sendo de 15.720 hectares denominado Gleba Salobra Devoluto VIII, Essa área esta arrecadada pela União,e está sendo objeto de ação do INCRA visando solucionar os problemas fundiários da Gleba, pois nesta área além da comunidade do Taquaral, tem outras comunidades rurais,pequenos, médios e grande fazendeiros e acampamento de famílias Sem Terras.
Dentro da comunidade do Taquaral existe um conflito fundiário pois um membro da própria comunidade está reivindicando como sendo de sua propriedade a área de 29 hectares, onde vivem mais cinco famílias. As famílias que vivem na comunidade, estão resistindo e entraram na justiça, pois alegam que a dona das terras é a Nossa Senhora do Carmo, devido uma doação feita antigamente para essa santa.
O requerente dessa propriedade cercou toda a área com arame farpado, soltando gado e, segundo alguns moradores, chegando a ameaçá-los. A cerca que foi colocada nessa área prejudica as formas de subsistência das famílias que ainda residem na comunidade, pois não tem área para fazer o plantio, a não ser um espaço muito limitado que é o quintal.
Durante nosso trabalho na comunidade do Taquaral, foram feitas observações e uso de máquina fotográfica digital para estar registrando imagens presente na comunidade e os lugares da memória, mediante autorização. Foram realizadas entrevistas com os moradores, tanto com aqueles considerados “testemunhas credenciadas”, como nos coloca Pollack, como com os demais moradores. As informações orais possibilitam ter acesso a dados que não é encontrada em documentos sobre a área e até mesmo para ter acesso a versão da historia da comunidade vista pelos próprios moradores, tornando-se importante devido à escassez de fontes documentais.
As entrevistas foram feitas de forma aberta com o uso de gravador, mediante a autorização dos demais. Também foram realizadas pesquisas bibliográficas, pesquisa documental no INCRA e no Cartório do 1º Oficio (certidão de registro de imóvel).
Dentro da comunidade existem duas memórias em disputa: uma oficial e outra subalterna. A organização dessa memória oficial está relacionada à luta da comunidade em estar defendendo sua permanência nos 29 hectares de terra que consideram como sendo terra de santo. A memória subalterna refere-se há um tempo mais distante, que em outro contexto, seria utilizada para defender uma área muito maior que os 29 hectares, além de relacionar a identidade do povo da comunidade do Taquaral como remanescentes quilombolas.
Nesse caso, decidimos trabalhar com as duas versões sobre a história da comunidade que nos foi apresentada a partir do nosso contato com os moradores desse local, de forma que não estamos aprofundando na historia da comunidade como um todo.
Há pouca documentação sobre a história da comunidade do Taquaral, sendo que os poucos trabalhos que foram elaborados sobre essa área se referem às atividades agropecuárias e o impacto do processo de expropriação sobre essa pratica, além de que em sua quase totalidade são trabalhos acadêmicos e não foram amplamente divulgados.
Durante nosso contato com a comunidade nos foi apresentada pelos moradores duas versões da história sobre a origem da comunidade do Taquaral. A primeira versão, tida como historia oficial da comunidade refere-se à origem ligada aos Ferreira Mendes, sendo a segunda uma versão subalterna referente aos tempos de uma ex-escrava chamada Germana.
Para compreender esse processo faz-se necessário entender o que é memória e o que é uma memória coletiva. A memória é um elemento construído consciente ou inconscientemente pelo individuo, onde se armazena aquilo que se quer guardar.
Segundo Pollack, a memória é construída por acontecimentos vividos pelo próprio individuo e aqueles vividos pela comunidade na qual ele faz parte. Percebe-se isso no momento em que as pessoas que vivem no Taquaral referem ao período de seus pais e avós, para nos contar um episodio vivenciado por essas pessoas como se tivesse sido vivido por eles mesmo.
Quanto à memória coletiva, é resultado de uma construção da história do grupo. Essa construção acontece por meio a rememoração de um passado, mas não um episódio qualquer. É relembrado aquilo que em determinado momento do presente tem grande valor para a comunidade. Como nos coloca Verán:
Numerosos autores têm mostrado como, em situação de concorrência ou de ameaças para a integridade de um grupo, a mobilização de uma ‘memória coletiva’, e a construção de uma ‘identidade coletiva’ podem exercer uma papel fundamental na defesa do grupo contra seus agressores.
Na comunidade do Taquaral a construção de uma memória coletiva está estreitamente ligada à ameaça da perda da terra. Esse processo se fez como se buscasse legitimar sua presença nessas terras.
A memória oficial que nos foi apresentada, refere aos Ferreira Mendes como sendo os fundadores da comunidade, os que doaram os 29 hectares para Nossa Senhora do Carmo. Nessa versão é como se o patrimônio tivesse surgido no momento em que os Mendes, que sendo possuidores de uma grande quantidade de terra, doaram a santa uma área correspondente ao que os moradores reivindicam atualmente.
A igreja da comunidade foi construída em 1911 por Pedro Ferreira Mendes e o sino doado por seu irmão, João Ferreira Mendes, ambos moradores do Taquaral. Tanto a igreja quanto o sino permanecem na comunidade, servido como “lugares da memória”, o que é utilizado por esses moradores para estar legitimando esta versão da história da comunidade.”Existem lugares da memória, lugares particularmente ligados a uma lembrança, que pode ser uma lembrança pessoal, mas também pode não ter apoio no tempo cronológico.”
Os lugares da memória citado pelos moradores nos levam tanto à lugares fora da área dos 29 hectares, quando à lugares fora desta área. Quanto ao que atualmente se localizam dentro dessa área, eles fazem referencia ao cemitério dos anjos e ao monjolo:
[...] na frente da igreja tem um cemitério de anjo [...] que é cercado de arame. (Sr. Manoel, 83 anos)
Quando chegamos aqui já existia o monjolo – soca arroz. Quando chegou na comunidade ainda usava o monjolo, tinha roça na Água Fria, ninguém fazia roça dentro do patrimônio. Tinha um lugar separado para a roça, agora esse lugar foi vendido. A Água Fria não fazia parte da terra da Santa. ( Dona Andreza, 69 anos).
Os lugares da memória, do tempo em que dizem que viviam todos juntos, antes do processo de expropriação, atualmente se localiza dentro de área pertencente a particulares. Nesse caso, temos o cemitério dos adultos, localizado atualmente na Fazenda Poderosa.: “Lá é um cemitério muito antigo, quando eu me entendia por gente já existia esse cemitério, mas nunca ninguém interessou de reunir pra fazer um muro, uma cercada.” (Sr. Manoel).
Outros lugares citados se encontram fora dessa área de 29 hectares, como as bocainas, lugares onde eram realizados as lavouras. “Bocaina do Bebedouro era em outra sesmaria, mas era do povo do Taquaral mesmo. Eu mesmo cheguei a trabalhar lá na bocaina do Bebedouro. Hoje já tem outro dono.” (Sr. Manoel).
Um “marcador da memória” que aparece nos depoimentos dos antigos moradores da comunidade é a festa a Nossa Senhora do Carmo, realizada na comunidade há vários anos:
Não! Antes da igreja fazia a festa na casa da Germana. A vó Germana – nós tratávamos tudo de avó, era uma velha – então nós que fazíamos a festa da Nossa Senhora do Carmo e da Nossa Senhora do Rosário. Ai acabou a festa de Nossa Senhora do Rosário, não fizemos mais. Ai ficou a da Nossa Senhora do Carmo, ai passou por uns 20 anos, eu que iniciei a festa de novo [...] ( Sr. Manoel).
A história subalterna sobre a comunidade quase não é falada pelos moradores, percebe-se um esforço em não estar tocando nesse assunto, como se não houvesse a necessidade de lembrar. Nessa versão, a origem da comunidade vai além dos Ferreira Mendes, remetendo ao tempo da Germana, ou melhor, da vovó Germana, como é colocada pelo Sr. Manoel.
Alguns moradores fazem referencia há um período bem mais distante, aonde chega a comentar que a tal Germana era uma escrava afilhada da dona da usina que existia no Taquaral, que após a morte da madrinha acabou se casando com o filho da madrinha, o João Hipólito. Essa história traz com ela a possibilidade do Taquaral ser uma área de remanescentes de quilombos, o que lhe dariam a possibilidade de reivindicar não só os 29 hectares, mas uma área bem maior.
Se assumir a identidade de remanescente de quilombo lhes daria a possibilidade de reivindicar uma área maior que os 29 hectares, que antes já fora ocupada por eles, por que os moradores da comunidade do Taquaral não reivindicam a sua permanência na terra como descendentes quilombolas? Para estar refletindo sobre esse aspecto é necessário levar em consideração as influencias que exercem os mediadores sociais sobre a identidade do grupo.
Os mediadores sociais, padre que atende a comunidade, Sindicato de Trabalhadores Rurais de Cáceres, e algumas ONGs, priorizaram a luta da dos moradores da área como sendo comunidade tradicional (marroquianos) e ao levar informações para a comunidade e a assessorar nas suas reivindicações incentivaram a luta dos mesmos para a regularização da área como “terra de santo”. Deste modo influenciam de forma indireta na formação da identidade e na construção da memória coletiva da comunidade do Taquaral e também na forma de lutar pelos seus direitos.
Nas existe outras identidades disponíveis para os moradores do Taquaral com direitos e deveres diferentes dos de comunidade tradicional (marroquianos), nesse sentido, faz-se de extrema importância o contato de outras pessoas e instituições com a comunidade do Taquaral, para levar a essas pessoas não apenas as informações referentes aos direitos morroquianos e comunidades tradicionais, mas também para esclarecer sobre os direitos dos remanescentes de quilombolas.
A memória como uma forma de luta é uma resposta do grupo diante da ameaça da perda de seu território. A mobilização em torno de uma memória oficial criada pelo grupo é uma resposta a essas ameaças, tanto externa quanto interna.
A noção de remanescentes de quilombolas, assim como de terra de santo, surge como uma opção entre outras para solucionar o conflito fundiário pelo qual a comunidade está passando. O que define a opção a ser escolhida pelo grupo são as informações que o mesmo tem e os benefícios que acham que vão adquirir para sua luta.
Durante as entrevistas, as pessoas vão lembrando aquilo que considera ter alguma importância para a comunidade. Cabe ao entrevistador formular perguntas e situações que estimule o entrevistado a lembrar de outros acontecimentos, a estar indo além daquilo que já foi colocado.
Sabemos que não é possível se lembrar de todos os acontecimentos, havendo uma seletividade da memória. A memória é organizada de acordo com o presente, para poder planejar um projeto do futuro. Nesse caso os acontecimentos que a comunidade do Taquaral enfrenta são determinantes para a construção de sua memória coletiva e individual.
Com base nas necessidades e objetivos do presente, são organizadas as lembranças do passado para planejar um projeto do futuro (seletividade da memória). A história oficial defendida na comunidade do Taquaral está sendo norteada pela questão de defesa do território que julgam ser de direito dos moradores da comunidade. Desta forma, construíram uma memória coletiva onde defendem que a área de 29 hectares foram doados pelos Ferreira Mendes a santa padroeira da comunidade Nossa Senhora do Carmo, ou seja, defendem uma terra de santo: “[...] porque o dono dali é Nossa Senhora de Fátima.” (Sr. Nicolau, 74 anos).
Seguindo a história subalterna, a história da comunidade passa a ser mais antiga, remetendo a doação/compra feita por uma ex-escrava, a Germana, e seu marido João Hipólito:
“Lá mesmo na comunidade eu conheci muito velho. O João Hipólito que foi um dos primeiros donos. A mulher dele chamava Germana (...) Esse João Hipólito e a mulher dele, eu estava moleque ainda. Eu nasci na Cachoeirinha e o João Hipólito era filho dessa Maria (pausa) mulher que era dona da usina lá do começo do Taquaral, Maria Paes, dona da usina do Taquaral (...) Olha, do começo eu não sei contar, mas essa mulher que eu falei agora era o primeiro dono do Taquaral. Ai ela faleceu, ficou o João Hipólito como filho e casou com a enteada dela, uma preta...uma negra de escravidão, era escrava e chamava Germana e o sobrenome eu não sei.” Sr Nicolau
“Germana era uma mulher que morava aqui, ela e o marido dela doou não sei para quem. Germana era uma escrava – negra. A usina era do tempo dela.” Dona Andreza.
Desta forma, essa história vem acompanhada da identidade de remanescente de quilombolas e o projeto para o futuro não englobaria apenas os 29 hectares, mas uma área bem maior.
Nesse período os acordos de compra e vendas não foram registrados no cartório, eram feitos verbalmente. Uma pessoa que era dona vendia para outra pessoa, que passava mais adiante. E assim sucessivamente. Com relação à área deixada para a santa, o senhor Nicolau diz:
A escritura verdadeira está no fórum, mas eu tenho as sete copias dos primeiros donos que escriturou, no tempo da Germana não era escriturado. Ai depois que passou pro nome desse segundo dono é que escrituraram tudo e deixou essa área pra Nossa Senhora, pro povo de Nossa Senhora. Sr. Nicolau.
Esse morador está se referindo a registro de imóvel presente no Cartório do 1º Oficio da comarca de Cáceres:
Data: 11.10.1976 - Imóvel: ‘Taquaral’. Um lote de terras pastais e lavradias sita no lugar denominado Taquaral, Município de São Luiz de Cáceres, cuja área de configuração de uma parallelogramono, tem de superfície de 1.320 hectares (HUM MIL TREZENTOS E VINTE HECTARES), tendo sido os respectivos marcos collocados; 1º além do matto do siputá próximo a um pequeno barreiro. O 2º a 1.200 metros do 1º morro grande, ao lado direito da estrada que vem das ‘Ahumas’ para o Taquaral. O 3º próximo ao morro grande, alem do correguinho dos três morrinhos e próximo também da estrada que vai do ‘Taquaral’ à São Luiz de Cáceres; O 4º na várzea do assapeixal, perto de uma grossa licheira. – PROPRIETARIO: O ESTADO DE MATO GROSSO. – R.1-1.931:- Feito em 11 de outubro de 1.976 em virtude do qual o proprietário: O Estado de Mato Grosso, por titulo de domínio expedido em 15 de fevereiro de 1900, assinado pelo Presidente do Estado de Matto-Grosso, o Coronel Antonio Pedro Alves de Barros. TRANSMITIU o imóvel supra à: NICOLAU DIAS DE CARVALHO, FRANCISCO ANTONIO DO BONFIM; BENEDITO ANTONIO DIAS DE CARVALHO, JOAO HYPOLITO DIAS DE CARVALHO; VICTOR BERNARDINO DE SOUZA. THOMAZIA DIAS DE CARVALHO. FRANCISCA BERNARDINA DE SOUZA E ROSA SOARES DE SOUZA.”
Nesse documento, está que a área que compreende a comunidade do Taquaral foi em 1900 transmitida pelo então presidente de Mato Grosso, o coronel Antonio Pedro Alves de Barros que governou de 1899 a 1903, a sete pessoas, que inclusive possuem sobrenomes semelhantes, vindo possivelmente a ser parte da mesma família. Mesmo sendo realizada a transferência do titulo de domínio em 1900, o registro só foi elaborado em 1976, sendo que a área é bem maior do que a atual da comunidade.
Seguindo a fala do Sr. Nicolau, essas sete pessoas seriam as mesmas que compraram uma área no Taquaral e doaram 29 hectares a santa. Nesse caso, temos de levantar dois questionamentos para trabalhos futuros mais aprofundados sobre essa comunidade: se a terra foi doada por essas sete pessoas, então não foi os Ferreira Mendes que fizeram a doação dos 29 hectares a santa; e se foi uma área transferida pelo Presidente do Estado de Mato Grosso, então não foi uma compra realizada por intermédio da Germana.
Quando iniciamos a realização das entrevistas na comunidade nos foi apresentado um “depoente oficial”, para relatar a história da comunidade. Esse senhor contou a versão oficial da história da comunidade do Taquaral, a que eles apresentam para defender os 29 hectares como sendo área de terra de santo. De acordo com e Pollack :
A escolha das testemunhas feita pelas responsáveis pela associação é percebida como tanto mais importante quanto a inevitável diversidade dos testemunhos corre sempre o risco de ser percebida como prova da inautenticidade de todos os fatos relatados”
A escolha de uma pessoa para estar dando as entrevista é uma forma de controle da memória e de evitar o aparecimento de outras versões da história ou contradições.
Dentro da comunidade do Taquaral há uma disputa de identidades sociais, entre serem morroquiano, agricultores ou remanescentes de quilombolas. A identidade é uma construção que o individuo faz de si para apresentar aos outros e a si próprio. É a sua imagem. Assim como há uma identidade em disputa, também há uma memória, entre a oficial e a subalterna. Essas disputas referem ao contexto pelo qual a comunidade está passando, procurando uma forma de defender os interesses do grupo.
Segundo Pollack, tanto a identidade quanto a memória podem ser vista como algo negociável, podendo ser reconstruído de acordo com os interesses individuais e/ou coletivos. Além que: “a memória e a identidade são valores disputados em conflitos sociais e intergrupais, e particularmente em conflitos que opõem grupos políticos diversos”.
Independente da versão que nos foi apresentada, ambas faz referencia ao processo de expropriação pelo qual a comunidade do Taquaral passou na década de 60: “[...] o pessoal foi comprando e morava ali no patrimônio. Ai depois que o INCRA mandou mudar e cada um abrir seu setor. Esse ai que foi o problema (...) o INCRA mandou que cada um mudasse de la e abrisse um setor. Ai, por ai que começou...” Sr. Manoel.
Os moradores, de forma geral, culpam esse processo pelo que aconteceu e ainda está acontecendo na comunidade. Na maioria das vezes, ao comentar sobre o período anterior ao processo de expropriação, relembram mais o período de fartura, o tempo em que todos viviam em harmonia e desfrutavam da abundancia de alimentos.
“A comunidade lá era uma união, todo mundo respeitava e trabalhava. Aqueles que tinham mata davam para dá para trabalhar, não era como é agora, que ta tudo diferente, quem tinha mata dava para trabalhar aí a vontade, eu quero é que tenha fartura. Então a gente trabalhava, eu, por exemplo, meu pai tinha só, a mãe dele que tinha um pedaço de terra lá, eu trabalhei, adquiri tudo o que tenho lá. Trabalhei bastante (...) quem tinha a terra maior dava para plantar, ninguém cobrava nada. Então aquele povão trabalhava.” Sr. Manoel.
“E todos tinham, não é igual é hoje.” Dona Alice.
Quando comparado com o presente, diz que agora tudo está mais difícil. Culpam o processo de expropriação, que segundo eles, foi desencadeado pelo INCRA que no período de 1960 chamava-se IBRA. Após fazer referencias a esse período, retomam ao processo judiciário que estão enfrentando, também referente à questão de terras. Esse processo já esta correndo a aproximadamente nove anos, tendo uma lentidão muito grande em suas agilizações.
O processo de expropriação de terras pelo qual passou a comunidade do Taquaral na década de 60 provocou perda territorial, que conseqüentemente influenciou em vários aspectos. Segundo os moradores dessa comunidade, como o povo ficou sem terra para plantar, acabou saindo da comunidade, indo para outras regiões: “(...) era uns 150 moradores.” Sr. Manoel. Atualmente vivem apenas seis famílias na comunidade.
A comunidade era povoada, agora não tem nem a metade de todo o povo. O INCRA falou que cada um era pra situar em outro local. Cada um tinha o seu pedaço onde plantava. (...) Foram para a Chapadinha, Barreiro Vermelho e também pra cidade.” (Dona Margarida, 67 anos).
Diante de não ter onde plantar para tirar a renda, as famílias se deslocaram para outras áreas formando novas comunidades. Os que continuaram tiveram que se tornar “diaristas” trabalhando nas fazendas da região.
O processo judiciário agravou ainda mais a situação das famílias que vivem no Taquaral. Com as cercas colocadas pelo suposto dono das terras não é possível fazer roça e nem sair para pegar nas matas as ervas e outros medicamentos antes utilizados para remédio e mesmo para alimentação.
Atualmente o Taquaral é uma comunidade de “velhos”, pois em decorrência desses processos os jovens não vêem oportunidade para o futuro ficando dentro da comunidade. Desta forma, as disputas internas na comunidade do Taquaral continuarem pode levar ao fim uma comunidade com mais de cem anos de história, pois quando as pessoas mais velhas que moram nesse local já não mais existir, não haverá que continue essa história.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS:
COSTA, João Felipe Garcia. O Lugar, a Gente e as Coisas: um estudo sobre a história, a subsistência e a cultura material dos morroquianos da Serra das Araras, MT. Porto Alegre, 1997.
POLLACK, Michael. Memória e identidade social. Estudos históricos. Rio de Janeiro. V.05, nº10. p.200-212, 1992.
____ . POLLAK, Michael. Memória, Esuecimento, Silencio. Estudos Históricos, Rio de Janeiro,1989.
SHARPE, Jim. A História Vista de Baixo. In: BURKE, Peter (Org.) A Escrita da Historia: Nova Perspectiva. São Paulo: Editora UNESP, 1992 (Biblioteca Básica).
SILVA, Renata Prado. Transformações históricas dos sistemas agrícolas da região da província serrana ao longo da estrada Cáceres – Porto Estrela, MT. Cuiabá, 2007.
VERÁN, Jean-François. Rio das Rãs: memória de uma “Comunidade Remanescente de Quilombo”. Afro-Ásia, 21-22(1998-1999), p.297-329.
________________. Memória, esquecimento e silencio. Estudos históricos. Rio de janeiro. Nº03. p.03-15, 1989.
CARTORIO do 1º Oficio. Registro de Imóveis. Matricula nº 29.851, fls. 211, de 2003.
CARTORIO do 1º Oficio. Registro de Imóvel. Matricula nº 1.931 Lº2-B-1 FLS 101.
TERMO DE ACEITE DE TRABALHOS
A COEREH, divulga por meio deste documento os textos científicos aprovados para publicação no Anais do II Encontro Regional dos Estudantes de História do Centro Oeste e Triangulo Mineiro, previsto para sair até o final do ano letivo de 2009 em forma de impresso.
O Anais após publicado, será enviado para os autores dos artigos científicos que comporão o mesmo.
Artigos aceitos para publicação e respectiva apresentação oral no Evento:
A INFLUÊNCIA DO ESTADO NA REPRESSÃO AOS ALEMÃES EM CURITIBA: DO PROJETO DE NACIONALIZAÇÃO A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL
Márcio José Pereira
A NOVA HISTÓRIA POLÍTICA E SUAS RELAÇÕES COM A MÍDIA
David Antonio de Castro Netto
ANÁLISE DAS RELAÇÕES DE GÊNERO NO PROCESSO CRIMINAL
Andréia da Silva Oliveira
OS ASSENTAMENTOS DA MICRORREGIÃO DE TRÊS LAGOAS/MS: CARACTERÍSTICAS SÓCIOECONÔMICAS DO ASSENTAMENTO PONTAL DO FAIA
Andrey M. Martin
CONSIDERAÇÕES SOBRE A POLÍTICA EMIGRATÓRIA JAPONES
Paulo José Soares Filho
NA PESQUISA E NO ENSINO ACADÊMICO: UMA REFLEXÃO SOBRE AS IMPLICAÇÕES TEÓRICO-METODOLÓGICAS NA FORMAÇÃO DO PROFESSOR-HISTORIADOR
Lays Matias Mazoti
ERA VARGAS: ORGANIZAÇÃO E PRÁTICAS POLÍTICAS DO PARTIDO NAZISTA NO ESTADO DE SÃO PAULO (1930-1945)
Renan Gonçalves Bressan
AS RELAÇÕES DE GÊNERO NOS PROCESSOS DE HOMICÍDIO
Kelma Gonçalves Sobrinho
O COTIDIANO DOS ESCRAVOS E TRABALHADORES LIVRES NO BRASIL DO SÉCULO XIX
Paulo Leonardo Silva Soares
SONHOS E REBELDIAS NAS REPRESENTAÇÕES DE “ANOS REBELDES”
Maria de Lourdes Fernades Silva
TEMPO DE GUERRA: POLÍTICAS ESTATAIS REPRESSORAS (O CASO DOS ALEMÃES E ITALIANOS NA TRÍPLICE FRONTEIRA)
Micael Alvino da Silva
O DESFECHO DA GUERRA DAS MALVINAS E SUA IMPORTÂNCIA PARA O FIM DA DITADURA MILITAR NA ARGENTINA
Iasson Prestes Gelatti
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Ana Claudia Martins dos Santos
A EDUCAÇÃO PATRIMONIAL E A PRESERVAÇÃO DO PATRIMÔNIO ARQUEOLÓGICO SUL-MATO-GROSSENSE
Bruno Mendes Tulux
Éder Jâneo da Silva
A FRAGILIDADE DA FRONTEIRA OESTE DO BRASIL: MATO GROSSO ENTRE 1850 E 1865
Leonice Bazzi do Nascimento
Ana Claudia Martins dos Santos
REFORMA UNIVERSITÁRIA DE 1968: ESTRATÉGIA E ARTIMANHA MILITAR – O CASO DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE GOIÁS
Nayara Cristina Carneiro de Araújo
Resumos (trabalhos aceitos apenas para apresentação oral)
Por dentro das brumas: uma análise do filme “As Brumas de Avalon” e seu contexto histórico
Rodrigo Rodrigues de Freitas Brandão
A mão que constrói
Natalia Scarabeli Zancanari
Os PCNs de História e a prática docente: reflexões acerca da pluralidade cultural em sala de aula na cidade de Amambai/MS
Wilson da Silva Serejo
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Estudar as comunidades tradicionais é uma forma de dar voz a experiência vivida por essas pessoas, que tem sido de certa forma ignorada pela historia oficial. A história de vida das pessoas que estão na comunidade do Taquaral não são objetos de estudo da “História Oficial”, tida como história dos “vencedores”, que não se ocupa com a experiência dos povos indígenas, populações tradicionais, remanescentes de quilombos, sesmeiros etc..
A opção do projeto foi pelos excluídos, pela “Historia Vista de Baixo”, como nos apresenta Jim Sharpe:
Mas a importância da historia vista de baixo é mais profunda [...]. Ela proporciona também um meio para reintegrar sua historia aos grupos sociais que podem ter pensado tê-la perdido, ou que nem tinha conhecimento da existência de sua história.
Seguindo esse ponto de análise de Jim Sharpe, trabalhar com a história da comunidade do Taquaral é estudar as experiências das pessoas comuns, contribuindo diretamente para que se vejam como sujeitos ativos e importantes na formação da localidade onde vivem e parte integrante da historia de Cáceres.
Uma das grandes dificuldades em se trabalhar com a memória é que quanto mais afastado do tempo presente for, mais restritas serão as variedades de fontes, pois as pessoas envolvidas no acontecimento podem não estar mais vivas ou as lembranças ir apenas até determinado período.
Mas o historiador oral tem problemas óbvios ao tratar com pessoas que morreram antes de serem gravadas ou cuja memória foi perdida por seus sucessores, e o tipo de testemunhos direto que pode obter é negado aos historiadores dos períodos mais antigos.
Deparamo-nos com esse fato, sendo que não estamos levantando a historia da comunidade do Taquaral como um todo, pois as lembranças das pessoas que vivem na comunidade chegam ao máximo até o bisavô e para obter todos os dados precisaríamos de mais tempo e recursos, o que um projeto de iniciação cientifica não conseguiria suprir.
É possível que essa dificuldade em estar relembrando o passado não seja apenas um branco na memória. Muitas vezes, só é lembrado aquilo que naquele momento é considerado importante para a comunidade. As pessoas relacionam o seu passado com as necessidades do seu presente e com aquilo que desejam construir para o futuro. Quanto à dificuldade ao longo de uma entrevista Pollack coloca:
“Assim, as dificuldades e bloqueios que eventualmente surgiram ao longo de uma entrevista só raramente resultavam de brancos da memória ou de esquecimento, mas de uma reflexão sobre a própria utilidade de falar e transmitir seu passado.”
O nosso objeto de estudo é a comunidade do Taquaral, localizada a 22 km da cidade de Cáceres, na BR 343 que liga o município de Cáceres a Barra dos Bugres. O município de Cáceres pertence à mesorregião Centro-sul mato-grossense e a microrregião Alto Paraguai, tendo a extensão territorial de 24.398 Km², sendo seu contingente populacional de 84.175 (IBGE/2007).
Essa localidade é denominada como Morraria, por estar dentro da Província Serrana.
Na área compreendida entre os municípios de Cáceres e Porto Estrela – MT está parte da Província Serrana, nela encontra-se uma região conhecida como Morraria. Segundo seus próprios moradores o lugar tem esse nome devido às seqüências de morros que apresenta a região e é entre esses morros, nas chamadas bocainas, que esse povo que se autodenomina morroquiano, habita.”
A comunidade está inserida dentro de uma área muito maior, sendo de 15.720 hectares denominado Gleba Salobra Devoluto VIII, Essa área esta arrecadada pela União,e está sendo objeto de ação do INCRA visando solucionar os problemas fundiários da Gleba, pois nesta área além da comunidade do Taquaral, tem outras comunidades rurais,pequenos, médios e grande fazendeiros e acampamento de famílias Sem Terras.
Dentro da comunidade do Taquaral existe um conflito fundiário pois um membro da própria comunidade está reivindicando como sendo de sua propriedade a área de 29 hectares, onde vivem mais cinco famílias. As famílias que vivem na comunidade, estão resistindo e entraram na justiça, pois alegam que a dona das terras é a Nossa Senhora do Carmo, devido uma doação feita antigamente para essa santa.
O requerente dessa propriedade cercou toda a área com arame farpado, soltando gado e, segundo alguns moradores, chegando a ameaçá-los. A cerca que foi colocada nessa área prejudica as formas de subsistência das famílias que ainda residem na comunidade, pois não tem área para fazer o plantio, a não ser um espaço muito limitado que é o quintal.
Durante nosso trabalho na comunidade do Taquaral, foram feitas observações e uso de máquina fotográfica digital para estar registrando imagens presente na comunidade e os lugares da memória, mediante autorização. Foram realizadas entrevistas com os moradores, tanto com aqueles considerados “testemunhas credenciadas”, como nos coloca Pollack, como com os demais moradores. As informações orais possibilitam ter acesso a dados que não é encontrada em documentos sobre a área e até mesmo para ter acesso a versão da historia da comunidade vista pelos próprios moradores, tornando-se importante devido à escassez de fontes documentais.
As entrevistas foram feitas de forma aberta com o uso de gravador, mediante a autorização dos demais. Também foram realizadas pesquisas bibliográficas, pesquisa documental no INCRA e no Cartório do 1º Oficio (certidão de registro de imóvel).
Dentro da comunidade existem duas memórias em disputa: uma oficial e outra subalterna. A organização dessa memória oficial está relacionada à luta da comunidade em estar defendendo sua permanência nos 29 hectares de terra que consideram como sendo terra de santo. A memória subalterna refere-se há um tempo mais distante, que em outro contexto, seria utilizada para defender uma área muito maior que os 29 hectares, além de relacionar a identidade do povo da comunidade do Taquaral como remanescentes quilombolas.
Nesse caso, decidimos trabalhar com as duas versões sobre a história da comunidade que nos foi apresentada a partir do nosso contato com os moradores desse local, de forma que não estamos aprofundando na historia da comunidade como um todo.
Há pouca documentação sobre a história da comunidade do Taquaral, sendo que os poucos trabalhos que foram elaborados sobre essa área se referem às atividades agropecuárias e o impacto do processo de expropriação sobre essa pratica, além de que em sua quase totalidade são trabalhos acadêmicos e não foram amplamente divulgados.
Durante nosso contato com a comunidade nos foi apresentada pelos moradores duas versões da história sobre a origem da comunidade do Taquaral. A primeira versão, tida como historia oficial da comunidade refere-se à origem ligada aos Ferreira Mendes, sendo a segunda uma versão subalterna referente aos tempos de uma ex-escrava chamada Germana.
Para compreender esse processo faz-se necessário entender o que é memória e o que é uma memória coletiva. A memória é um elemento construído consciente ou inconscientemente pelo individuo, onde se armazena aquilo que se quer guardar.
Segundo Pollack, a memória é construída por acontecimentos vividos pelo próprio individuo e aqueles vividos pela comunidade na qual ele faz parte. Percebe-se isso no momento em que as pessoas que vivem no Taquaral referem ao período de seus pais e avós, para nos contar um episodio vivenciado por essas pessoas como se tivesse sido vivido por eles mesmo.
Quanto à memória coletiva, é resultado de uma construção da história do grupo. Essa construção acontece por meio a rememoração de um passado, mas não um episódio qualquer. É relembrado aquilo que em determinado momento do presente tem grande valor para a comunidade. Como nos coloca Verán:
Numerosos autores têm mostrado como, em situação de concorrência ou de ameaças para a integridade de um grupo, a mobilização de uma ‘memória coletiva’, e a construção de uma ‘identidade coletiva’ podem exercer uma papel fundamental na defesa do grupo contra seus agressores.
Na comunidade do Taquaral a construção de uma memória coletiva está estreitamente ligada à ameaça da perda da terra. Esse processo se fez como se buscasse legitimar sua presença nessas terras.
A memória oficial que nos foi apresentada, refere aos Ferreira Mendes como sendo os fundadores da comunidade, os que doaram os 29 hectares para Nossa Senhora do Carmo. Nessa versão é como se o patrimônio tivesse surgido no momento em que os Mendes, que sendo possuidores de uma grande quantidade de terra, doaram a santa uma área correspondente ao que os moradores reivindicam atualmente.
A igreja da comunidade foi construída em 1911 por Pedro Ferreira Mendes e o sino doado por seu irmão, João Ferreira Mendes, ambos moradores do Taquaral. Tanto a igreja quanto o sino permanecem na comunidade, servido como “lugares da memória”, o que é utilizado por esses moradores para estar legitimando esta versão da história da comunidade.”Existem lugares da memória, lugares particularmente ligados a uma lembrança, que pode ser uma lembrança pessoal, mas também pode não ter apoio no tempo cronológico.”
Os lugares da memória citado pelos moradores nos levam tanto à lugares fora da área dos 29 hectares, quando à lugares fora desta área. Quanto ao que atualmente se localizam dentro dessa área, eles fazem referencia ao cemitério dos anjos e ao monjolo:
[...] na frente da igreja tem um cemitério de anjo [...] que é cercado de arame. (Sr. Manoel, 83 anos)
Quando chegamos aqui já existia o monjolo – soca arroz. Quando chegou na comunidade ainda usava o monjolo, tinha roça na Água Fria, ninguém fazia roça dentro do patrimônio. Tinha um lugar separado para a roça, agora esse lugar foi vendido. A Água Fria não fazia parte da terra da Santa. ( Dona Andreza, 69 anos).
Os lugares da memória, do tempo em que dizem que viviam todos juntos, antes do processo de expropriação, atualmente se localiza dentro de área pertencente a particulares. Nesse caso, temos o cemitério dos adultos, localizado atualmente na Fazenda Poderosa.: “Lá é um cemitério muito antigo, quando eu me entendia por gente já existia esse cemitério, mas nunca ninguém interessou de reunir pra fazer um muro, uma cercada.” (Sr. Manoel).
Outros lugares citados se encontram fora dessa área de 29 hectares, como as bocainas, lugares onde eram realizados as lavouras. “Bocaina do Bebedouro era em outra sesmaria, mas era do povo do Taquaral mesmo. Eu mesmo cheguei a trabalhar lá na bocaina do Bebedouro. Hoje já tem outro dono.” (Sr. Manoel).
Um “marcador da memória” que aparece nos depoimentos dos antigos moradores da comunidade é a festa a Nossa Senhora do Carmo, realizada na comunidade há vários anos:
Não! Antes da igreja fazia a festa na casa da Germana. A vó Germana – nós tratávamos tudo de avó, era uma velha – então nós que fazíamos a festa da Nossa Senhora do Carmo e da Nossa Senhora do Rosário. Ai acabou a festa de Nossa Senhora do Rosário, não fizemos mais. Ai ficou a da Nossa Senhora do Carmo, ai passou por uns 20 anos, eu que iniciei a festa de novo [...] ( Sr. Manoel).
A história subalterna sobre a comunidade quase não é falada pelos moradores, percebe-se um esforço em não estar tocando nesse assunto, como se não houvesse a necessidade de lembrar. Nessa versão, a origem da comunidade vai além dos Ferreira Mendes, remetendo ao tempo da Germana, ou melhor, da vovó Germana, como é colocada pelo Sr. Manoel.
Alguns moradores fazem referencia há um período bem mais distante, aonde chega a comentar que a tal Germana era uma escrava afilhada da dona da usina que existia no Taquaral, que após a morte da madrinha acabou se casando com o filho da madrinha, o João Hipólito. Essa história traz com ela a possibilidade do Taquaral ser uma área de remanescentes de quilombos, o que lhe dariam a possibilidade de reivindicar não só os 29 hectares, mas uma área bem maior.
Se assumir a identidade de remanescente de quilombo lhes daria a possibilidade de reivindicar uma área maior que os 29 hectares, que antes já fora ocupada por eles, por que os moradores da comunidade do Taquaral não reivindicam a sua permanência na terra como descendentes quilombolas? Para estar refletindo sobre esse aspecto é necessário levar em consideração as influencias que exercem os mediadores sociais sobre a identidade do grupo.
Os mediadores sociais, padre que atende a comunidade, Sindicato de Trabalhadores Rurais de Cáceres, e algumas ONGs, priorizaram a luta da dos moradores da área como sendo comunidade tradicional (marroquianos) e ao levar informações para a comunidade e a assessorar nas suas reivindicações incentivaram a luta dos mesmos para a regularização da área como “terra de santo”. Deste modo influenciam de forma indireta na formação da identidade e na construção da memória coletiva da comunidade do Taquaral e também na forma de lutar pelos seus direitos.
Nas existe outras identidades disponíveis para os moradores do Taquaral com direitos e deveres diferentes dos de comunidade tradicional (marroquianos), nesse sentido, faz-se de extrema importância o contato de outras pessoas e instituições com a comunidade do Taquaral, para levar a essas pessoas não apenas as informações referentes aos direitos morroquianos e comunidades tradicionais, mas também para esclarecer sobre os direitos dos remanescentes de quilombolas.
A memória como uma forma de luta é uma resposta do grupo diante da ameaça da perda de seu território. A mobilização em torno de uma memória oficial criada pelo grupo é uma resposta a essas ameaças, tanto externa quanto interna.
A noção de remanescentes de quilombolas, assim como de terra de santo, surge como uma opção entre outras para solucionar o conflito fundiário pelo qual a comunidade está passando. O que define a opção a ser escolhida pelo grupo são as informações que o mesmo tem e os benefícios que acham que vão adquirir para sua luta.
Durante as entrevistas, as pessoas vão lembrando aquilo que considera ter alguma importância para a comunidade. Cabe ao entrevistador formular perguntas e situações que estimule o entrevistado a lembrar de outros acontecimentos, a estar indo além daquilo que já foi colocado.
Sabemos que não é possível se lembrar de todos os acontecimentos, havendo uma seletividade da memória. A memória é organizada de acordo com o presente, para poder planejar um projeto do futuro. Nesse caso os acontecimentos que a comunidade do Taquaral enfrenta são determinantes para a construção de sua memória coletiva e individual.
Com base nas necessidades e objetivos do presente, são organizadas as lembranças do passado para planejar um projeto do futuro (seletividade da memória). A história oficial defendida na comunidade do Taquaral está sendo norteada pela questão de defesa do território que julgam ser de direito dos moradores da comunidade. Desta forma, construíram uma memória coletiva onde defendem que a área de 29 hectares foram doados pelos Ferreira Mendes a santa padroeira da comunidade Nossa Senhora do Carmo, ou seja, defendem uma terra de santo: “[...] porque o dono dali é Nossa Senhora de Fátima.” (Sr. Nicolau, 74 anos).
Seguindo a história subalterna, a história da comunidade passa a ser mais antiga, remetendo a doação/compra feita por uma ex-escrava, a Germana, e seu marido João Hipólito:
“Lá mesmo na comunidade eu conheci muito velho. O João Hipólito que foi um dos primeiros donos. A mulher dele chamava Germana (...) Esse João Hipólito e a mulher dele, eu estava moleque ainda. Eu nasci na Cachoeirinha e o João Hipólito era filho dessa Maria (pausa) mulher que era dona da usina lá do começo do Taquaral, Maria Paes, dona da usina do Taquaral (...) Olha, do começo eu não sei contar, mas essa mulher que eu falei agora era o primeiro dono do Taquaral. Ai ela faleceu, ficou o João Hipólito como filho e casou com a enteada dela, uma preta...uma negra de escravidão, era escrava e chamava Germana e o sobrenome eu não sei.” Sr Nicolau
“Germana era uma mulher que morava aqui, ela e o marido dela doou não sei para quem. Germana era uma escrava – negra. A usina era do tempo dela.” Dona Andreza.
Desta forma, essa história vem acompanhada da identidade de remanescente de quilombolas e o projeto para o futuro não englobaria apenas os 29 hectares, mas uma área bem maior.
Nesse período os acordos de compra e vendas não foram registrados no cartório, eram feitos verbalmente. Uma pessoa que era dona vendia para outra pessoa, que passava mais adiante. E assim sucessivamente. Com relação à área deixada para a santa, o senhor Nicolau diz:
A escritura verdadeira está no fórum, mas eu tenho as sete copias dos primeiros donos que escriturou, no tempo da Germana não era escriturado. Ai depois que passou pro nome desse segundo dono é que escrituraram tudo e deixou essa área pra Nossa Senhora, pro povo de Nossa Senhora. Sr. Nicolau.
Esse morador está se referindo a registro de imóvel presente no Cartório do 1º Oficio da comarca de Cáceres:
Data: 11.10.1976 - Imóvel: ‘Taquaral’. Um lote de terras pastais e lavradias sita no lugar denominado Taquaral, Município de São Luiz de Cáceres, cuja área de configuração de uma parallelogramono, tem de superfície de 1.320 hectares (HUM MIL TREZENTOS E VINTE HECTARES), tendo sido os respectivos marcos collocados; 1º além do matto do siputá próximo a um pequeno barreiro. O 2º a 1.200 metros do 1º morro grande, ao lado direito da estrada que vem das ‘Ahumas’ para o Taquaral. O 3º próximo ao morro grande, alem do correguinho dos três morrinhos e próximo também da estrada que vai do ‘Taquaral’ à São Luiz de Cáceres; O 4º na várzea do assapeixal, perto de uma grossa licheira. – PROPRIETARIO: O ESTADO DE MATO GROSSO. – R.1-1.931:- Feito em 11 de outubro de 1.976 em virtude do qual o proprietário: O Estado de Mato Grosso, por titulo de domínio expedido em 15 de fevereiro de 1900, assinado pelo Presidente do Estado de Matto-Grosso, o Coronel Antonio Pedro Alves de Barros. TRANSMITIU o imóvel supra à: NICOLAU DIAS DE CARVALHO, FRANCISCO ANTONIO DO BONFIM; BENEDITO ANTONIO DIAS DE CARVALHO, JOAO HYPOLITO DIAS DE CARVALHO; VICTOR BERNARDINO DE SOUZA. THOMAZIA DIAS DE CARVALHO. FRANCISCA BERNARDINA DE SOUZA E ROSA SOARES DE SOUZA.”
Nesse documento, está que a área que compreende a comunidade do Taquaral foi em 1900 transmitida pelo então presidente de Mato Grosso, o coronel Antonio Pedro Alves de Barros que governou de 1899 a 1903, a sete pessoas, que inclusive possuem sobrenomes semelhantes, vindo possivelmente a ser parte da mesma família. Mesmo sendo realizada a transferência do titulo de domínio em 1900, o registro só foi elaborado em 1976, sendo que a área é bem maior do que a atual da comunidade.
Seguindo a fala do Sr. Nicolau, essas sete pessoas seriam as mesmas que compraram uma área no Taquaral e doaram 29 hectares a santa. Nesse caso, temos de levantar dois questionamentos para trabalhos futuros mais aprofundados sobre essa comunidade: se a terra foi doada por essas sete pessoas, então não foi os Ferreira Mendes que fizeram a doação dos 29 hectares a santa; e se foi uma área transferida pelo Presidente do Estado de Mato Grosso, então não foi uma compra realizada por intermédio da Germana.
Quando iniciamos a realização das entrevistas na comunidade nos foi apresentado um “depoente oficial”, para relatar a história da comunidade. Esse senhor contou a versão oficial da história da comunidade do Taquaral, a que eles apresentam para defender os 29 hectares como sendo área de terra de santo. De acordo com e Pollack :
A escolha das testemunhas feita pelas responsáveis pela associação é percebida como tanto mais importante quanto a inevitável diversidade dos testemunhos corre sempre o risco de ser percebida como prova da inautenticidade de todos os fatos relatados”
A escolha de uma pessoa para estar dando as entrevista é uma forma de controle da memória e de evitar o aparecimento de outras versões da história ou contradições.
Dentro da comunidade do Taquaral há uma disputa de identidades sociais, entre serem morroquiano, agricultores ou remanescentes de quilombolas. A identidade é uma construção que o individuo faz de si para apresentar aos outros e a si próprio. É a sua imagem. Assim como há uma identidade em disputa, também há uma memória, entre a oficial e a subalterna. Essas disputas referem ao contexto pelo qual a comunidade está passando, procurando uma forma de defender os interesses do grupo.
Segundo Pollack, tanto a identidade quanto a memória podem ser vista como algo negociável, podendo ser reconstruído de acordo com os interesses individuais e/ou coletivos. Além que: “a memória e a identidade são valores disputados em conflitos sociais e intergrupais, e particularmente em conflitos que opõem grupos políticos diversos”.
Independente da versão que nos foi apresentada, ambas faz referencia ao processo de expropriação pelo qual a comunidade do Taquaral passou na década de 60: “[...] o pessoal foi comprando e morava ali no patrimônio. Ai depois que o INCRA mandou mudar e cada um abrir seu setor. Esse ai que foi o problema (...) o INCRA mandou que cada um mudasse de la e abrisse um setor. Ai, por ai que começou...” Sr. Manoel.
Os moradores, de forma geral, culpam esse processo pelo que aconteceu e ainda está acontecendo na comunidade. Na maioria das vezes, ao comentar sobre o período anterior ao processo de expropriação, relembram mais o período de fartura, o tempo em que todos viviam em harmonia e desfrutavam da abundancia de alimentos.
“A comunidade lá era uma união, todo mundo respeitava e trabalhava. Aqueles que tinham mata davam para dá para trabalhar, não era como é agora, que ta tudo diferente, quem tinha mata dava para trabalhar aí a vontade, eu quero é que tenha fartura. Então a gente trabalhava, eu, por exemplo, meu pai tinha só, a mãe dele que tinha um pedaço de terra lá, eu trabalhei, adquiri tudo o que tenho lá. Trabalhei bastante (...) quem tinha a terra maior dava para plantar, ninguém cobrava nada. Então aquele povão trabalhava.” Sr. Manoel.
“E todos tinham, não é igual é hoje.” Dona Alice.
Quando comparado com o presente, diz que agora tudo está mais difícil. Culpam o processo de expropriação, que segundo eles, foi desencadeado pelo INCRA que no período de 1960 chamava-se IBRA. Após fazer referencias a esse período, retomam ao processo judiciário que estão enfrentando, também referente à questão de terras. Esse processo já esta correndo a aproximadamente nove anos, tendo uma lentidão muito grande em suas agilizações.
O processo de expropriação de terras pelo qual passou a comunidade do Taquaral na década de 60 provocou perda territorial, que conseqüentemente influenciou em vários aspectos. Segundo os moradores dessa comunidade, como o povo ficou sem terra para plantar, acabou saindo da comunidade, indo para outras regiões: “(...) era uns 150 moradores.” Sr. Manoel. Atualmente vivem apenas seis famílias na comunidade.
A comunidade era povoada, agora não tem nem a metade de todo o povo. O INCRA falou que cada um era pra situar em outro local. Cada um tinha o seu pedaço onde plantava. (...) Foram para a Chapadinha, Barreiro Vermelho e também pra cidade.” (Dona Margarida, 67 anos).
Diante de não ter onde plantar para tirar a renda, as famílias se deslocaram para outras áreas formando novas comunidades. Os que continuaram tiveram que se tornar “diaristas” trabalhando nas fazendas da região.
O processo judiciário agravou ainda mais a situação das famílias que vivem no Taquaral. Com as cercas colocadas pelo suposto dono das terras não é possível fazer roça e nem sair para pegar nas matas as ervas e outros medicamentos antes utilizados para remédio e mesmo para alimentação.
Atualmente o Taquaral é uma comunidade de “velhos”, pois em decorrência desses processos os jovens não vêem oportunidade para o futuro ficando dentro da comunidade. Desta forma, as disputas internas na comunidade do Taquaral continuarem pode levar ao fim uma comunidade com mais de cem anos de história, pois quando as pessoas mais velhas que moram nesse local já não mais existir, não haverá que continue essa história.
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SHARPE, Jim. A História Vista de Baixo. In: BURKE, Peter (Org.) A Escrita da Historia: Nova Perspectiva. São Paulo: Editora UNESP, 1992 (Biblioteca Básica).
SILVA, Renata Prado. Transformações históricas dos sistemas agrícolas da região da província serrana ao longo da estrada Cáceres – Porto Estrela, MT. Cuiabá, 2007.
VERÁN, Jean-François. Rio das Rãs: memória de uma “Comunidade Remanescente de Quilombo”. Afro-Ásia, 21-22(1998-1999), p.297-329.
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