SITIO
BARREIRO: ORGANIZAÇÃO ECONÔMICA DE UMA COMUNIDADE NEGRA RURAL QUILOMBOLA NO
ESTADO
DE MATO GROSSO.
Antônio
Eustáquio de Moura¹ (65)92013897 eustaquiodemoura@yahoo.com.br
Escrito
em 2002
As
terras da comunidade Sitio Barreiro são terras de herança, onde cada conjunto
de famílias com parentesco mais próximos (irmãos, filhos) formam moradias
próximas umas das outras, e utilizam as terras mais próximas de suas moradias.
O
direito ao uso da terra - áreas de lavouras, matas, cerrado e campos naturais -
é garantido pelo parentesco com o fundador da comunidade (Sr Inocêncio Leite),
e mediado pela decisão das famílias da área.
Podendo beneficiar parentes que moram fora do sitio, mas que desejam
"tocar lavoura” no mesmo, e em casos raros é permitido o acesso à terra de
pessoas que não são parentes, mas que são ligadas a comunidade por laços de
amizade e de compadrio.
A
vegetação da comunidade é predominantemente de cerrado e campo natural. As margens do rio Bento Gomes e dos pequenos
córregos existentes no sitio são de alta fertilidade e apresentam matas
ciliares, nestas áreas é que são plantadas as roças.
As famílias do
Sitio Barreiro cultivam arroz, milho, feijão, mandioca, banana de fritar e cana
de açúcar. Nos espaços internos destas
lavouras plantam abóboras, quiabo, maxixe, couve, melancia, cará, batata doce e
amendoim. Nos terreiros das casas, de
modo geral, tem pequenos pomares. As
frutas mais plantadas são mangueiras, cajueiros, laranjeiras e limoeiros. Geralmente não fazem hortas nos quintais.
A produção de
verduras, legumes, frutas, feijão, arroz, milho e mandioca é destinada ao consumo
da família e das criações. Eventualmente
comercializam os excedentes de feijão, milho e mandioca. A banana de fritar e a cana de açúcar utilizada
para fazer “garapa” (caldo de cana) são vendidas para compradores de Cuiabá e
Várzea Grande, que periodicamente buscam os produtos na comunidade.
As roças das
famílias do sítio Barreiro podem ser classificadas de Lavoura Itinerante
(Agricultura Migratória, Agricultura de Coivara, Lavoura de Toco). Primeiramente a mata é derrubada, depois é
feito a queimada do material cortado, cujas cinzas aumentam a fertilidade do
solo. O plantio é realizado, sem que
sejam retirados os tocos e os troncos não carbonizados, que vão apodrecendo
gradativamente e fertilizando o solo.
Os moradores da
comunidade praticam a policultura em suas lavouras, fazem plantios consorciados
- milho com banana, milho com mandioca, cana de açúcar e arroz, e milho e
feijão. As lavouras de banana e de cana
de açúcar, a partir do segundo ano, normalmente tornam-se lavouras solteiras, ou
seja, não se planta outros tipos de plantas na área onde estão plantadas. Geralmente a área desmatada é cultivada com
culturas anuais e semi-perenes durante 3 a 5 anos.
Posteriormente a área, geralmente, na forma de bananal ou canavial velho
é deixada para ser encapoeirada, por um período variável de 5 a 10 anos, para descanso do
solo e recuperação da fertilidade natural da mesma. (pousio). Entretanto percebe-se uma diminuição
gradativa deste tempo de descanso do solo, devido à diminuição das terras
férteis/per capta, em decorrência do crescimento do número de moradores na
área, perda ou venda de terras.
O material utilizado
para formação das lavouras - mudas de banana, ramas de mandioca, pedaços de
cana de açúcar e sementes de cereais - é geralmente proveniente do próprio
bairro rural, sendo retirado das próprias lavouras ou obtido através de trocas
com vizinhos. Não utilizam insumos
modernos - como adubos, inseticidas, fungicidas e sementes selecionadas –
exceto, eventualmente, sementes selecionadas de milho e inseticidas nas
lavouras de feijão (que atualmente são cada vez menores e mais raras devido às
perdas com pragas e doenças).
A mão de obra
utilizada na roça é familiar, sendo basicamente trabalho de homens adultos,
havendo, também em algumas famílias, o trabalho de mulheres e de crianças. Em momentos de maior demanda de força de
trabalho, a mão de obra familiar é complementada através da troca de dias de
serviço, mutirão e compra de mão de obra local
Criam suínos, aves,
bovinos e eqüinos. As aves e os porcos
são criados soltos nos terreiros das casas, sendo que em alguns casos os porcos
ficam presos em mangueiros e chiqueiros. As aves e suínos não tem raças definidas e são
criados visando o consumo familiar. Normalmente
não são utilizados meios de produção externos na criação destes animais que são
alimentados com produtos da roça, exceto farelo para suplementar a alimentação
dos porcos.
Os bovinos são
geralmente azebuados, e os eqüinos são sem raça definida, os mesmos são criados
soltos no cerrado e nas pastagens naturais, e em alguns casos nas pequenas
pastagens artificiais de brachiaria que começaram a ser formadas na área. O número de cabeças de bovinos por família é
reduzido, havendo casos de famílias que não possuem nenhum animal. Os bovinos são utilizados para produção de
leite, destinado ao uso domestico, e para a cria de bezerros. Os eqüinos são utilizados como montaria e tração
de charretes (no sitio Barreiro não se utiliza tração animal nas roças).
As famílias de
agricultores do Sitio Barreiro não recebem assistência técnica, créditos
subsidiados, nem incentivos agropecuários provenientes de órgãos estatais, e em
sua maior parte não utilizam o credito rural.
Coletam diversos
tipos de plantas, que são utilizadas como alimentos, materiais para construção,
remédios e combustível. Usam: 1 -: madeiras
e sapé para a construção de casas de pau à pique, madeiras para cercas,
currais, chiqueiros e mangueiros; 2 - lenha para uso doméstico (anos atrás
vendiam lenha para cerâmicas e padarias); 3 - frutas silvestres tais como
Mangava, Lixirum, Gabiroba, Fruta de lobo, Cajuzinho do cerrado, Marmelada do
cerrado, Articum, Coroa, Coroinha , que são consumidos in-natura ou na forma de doces; 4 - plantas utilizadas como
remédios para pessoas e animais, conhecidas com os nomes locais de : Gervão,
Erva de Santa Maria, Mama de porca, Caravinha, Raiz de bugre, Arvore de bicho,
Fedegoso, Raiz de Santo Antônio, Velame, Cambarú, Assapeixe, Vassourinha, Casca
de jatobá, Barba de bode etc.
A caça e pesca são utilizadas para a
complementação da dieta familiar, não tendo importância econômica.
Segundo
informações dos moradores da comunidade, no passado, eles produziam, em suas
casas, farinha de mandioca, rapadura, redes de algodão, doces de frutas, que
eram destinados ao consumo das famílias e venda de parte da produção. Atualmente a produção desses produtos
diminuiu sensivelmente e as poucas famílias que continuam produzindo estes
produtos, o fazem para o consumo familiar
Parte dos moradores
do sitio Barreiro trabalha sazonalmente nas lavouras dos moradores da própria
comunidade, principalmente na capina de lavouras e na colheita de banana, arroz
e cana de açúcar. Freqüentemente, alguns
membros das famílias tornaram-se trabalhadores sazonais em fazendas da região,
ou assalariados em empregos urbanos, principalmente em Cuiabá e Várzea Grande.
È expressivo o
número de pessoas da comunidade que são aposentadas. As aposentadorias têm um expressivo papel na
manutenção das famílias da comunidade. Outra
fonte de recurso são as remessas de dinheiro ou de outro tipo de contribuição (alimentos,
meios de produção, bens de uso pessoal e domestico) realizadas por parentes que
moram nas cidades.
Conclusão
No Sitio Barreiro, se
pratica uma agricultura com base na policultura, consorcio, pousio, fertilidade
natural do solo, utilização de meios de produção originários da própria
localidade, e o uso de mão de obra familiar, somada às práticas de auxilio
mútuo e a contratação sazonal de mão de obra local.
A produção pecuária
é para autoconsumo. A produção agrícola é destinada ao autoconsumo e ao
mercado. Utilizam tecnologia
agropecuária que prioriza o uso de recursos originários na própria comunidade.
A coleta de plantas
é importante como fonte de materiais de construção, alimentos, remédios e
combustível. A caça e a pesca não têm
valor comercial, mas servem para a complementação da alimentação das famílias.
O artesanato e a
industrialização caseira, que no passado foram intensas, atualmente são realizados
apenas para o consumo familiar,
As outras formas das
famílias do sitio Barreiro obterem recursos externos são a venda de mão de obra
permanente ou sazonal, a aposentadoria, e o dinheiro e recursos provenientes de
membros da família e parentes moradores em outras áreas urbanas.
Notas
do texto
1) Professor da Universidade do Estado de
Mato Grosso/campus de Cáceres. Coordenador do Projeto de pesquisa “Levantamento
das comunidades negras rurais dos municípios de Nossa Senhora do Livramento,
Poconé, Barra do Bugres e Cáceres” financiado pela FAPEMAT e apoiado pela
UNEMAT
Bibliografia
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Organização Econômica dos quilombos In: FUNDAÇÃO CULTURAL PALMARES. Quilombos
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ALTIERI, Miguel. Agroecologia : As
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Edna M. Ramos; HEBETTE, Jean (Org.). Na Trilha
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Belém: NAEA/UFPA, 1989.
MOURA, Antônio Eustáquio de Moura. Projeto
de Pesquisa Comunidades Remanescentes de
Quilombos no município de Nossa Senhora do Livramento/MT. Campinas:
Unicamp, 2000. digitado.
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