domingo, 16 de fevereiro de 2014

SITIO BARREIRO: ORGANIZAÇÃO ECONÔMICA DE UMA COMUNIDADE NEGRA RURAL QUILOMBOLA NO ESTADO DE MATO GROSSO.



SITIO BARREIRO: ORGANIZAÇÃO ECONÔMICA DE UMA COMUNIDADE NEGRA RURAL QUILOMBOLA NO ESTADO
 DE MATO GROSSO.


Antônio Eustáquio de Moura¹ (65)92013897 eustaquiodemoura@yahoo.com.br
Escrito em 2002

         As terras da comunidade Sitio Barreiro são terras de herança, onde cada conjunto de famílias com parentesco mais próximos (irmãos, filhos) formam moradias próximas umas das outras, e utilizam as terras mais próximas de suas moradias.
         O direito ao uso da terra - áreas de lavouras, matas, cerrado e campos naturais - é garantido pelo parentesco com o fundador da comunidade (Sr Inocêncio Leite), e mediado pela decisão das famílias da área.  Podendo beneficiar parentes que moram fora do sitio, mas que desejam "tocar lavoura” no mesmo, e em casos raros é permitido o acesso à terra de pessoas que não são parentes, mas que são ligadas a comunidade por laços de amizade e de compadrio.
         A vegetação da comunidade é predominantemente de cerrado e campo natural.  As margens do rio Bento Gomes e dos pequenos córregos existentes no sitio são de alta fertilidade e apresentam matas ciliares, nestas áreas é que são plantadas as roças.
As famílias do Sitio Barreiro cultivam arroz, milho, feijão, mandioca, banana de fritar e cana de açúcar.  Nos espaços internos destas lavouras plantam abóboras, quiabo, maxixe, couve, melancia, cará, batata doce e amendoim.  Nos terreiros das casas, de modo geral, tem pequenos pomares.  As frutas mais plantadas são mangueiras, cajueiros, laranjeiras e limoeiros.  Geralmente não fazem hortas nos quintais.
A produção de verduras, legumes, frutas, feijão, arroz, milho e mandioca é destinada ao consumo da família e das criações.  Eventualmente comercializam os excedentes de feijão, milho e mandioca.  A banana de fritar e a cana de açúcar utilizada para fazer “garapa” (caldo de cana) são vendidas para compradores de Cuiabá e Várzea Grande, que periodicamente buscam os produtos na comunidade.
As roças das famílias do sítio Barreiro podem ser classificadas de Lavoura Itinerante (Agricultura Migratória, Agricultura de Coivara, Lavoura de Toco).   Primeiramente a mata é derrubada, depois é feito a queimada do material cortado, cujas cinzas aumentam a fertilidade do solo.  O plantio é realizado, sem que sejam retirados os tocos e os troncos não carbonizados, que vão apodrecendo gradativamente e fertilizando o solo.
Os moradores da comunidade praticam a policultura em suas lavouras, fazem plantios consorciados - milho com banana, milho com mandioca, cana de açúcar e arroz, e milho e feijão.  As lavouras de banana e de cana de açúcar, a partir do segundo ano, normalmente tornam-se lavouras solteiras, ou seja, não se planta outros tipos de plantas na área onde estão plantadas.  Geralmente a área desmatada é cultivada com culturas anuais e semi-perenes durante 3 a 5 anos.  Posteriormente a área, geralmente, na forma de bananal ou canavial velho é deixada para ser encapoeirada, por um período variável de 5 a 10 anos, para descanso do solo e recuperação da fertilidade natural da mesma. (pousio).  Entretanto percebe-se uma diminuição gradativa deste tempo de descanso do solo, devido à diminuição das terras férteis/per capta, em decorrência do crescimento do número de moradores na área, perda ou venda de terras.
O material utilizado para formação das lavouras - mudas de banana, ramas de mandioca, pedaços de cana de açúcar e sementes de cereais - é geralmente proveniente do próprio bairro rural, sendo retirado das próprias lavouras ou obtido através de trocas com vizinhos.  Não utilizam insumos modernos - como adubos, inseticidas, fungicidas e sementes selecionadas – exceto, eventualmente, sementes selecionadas de milho e inseticidas nas lavouras de feijão (que atualmente são cada vez menores e mais raras devido às perdas com pragas e doenças).
A mão de obra utilizada na roça é familiar, sendo basicamente trabalho de homens adultos, havendo, também em algumas famílias, o trabalho de mulheres e de crianças.  Em momentos de maior demanda de força de trabalho, a mão de obra familiar é complementada através da troca de dias de serviço, mutirão e compra de mão de obra local
Criam suínos, aves, bovinos e eqüinos.  As aves e os porcos são criados soltos nos terreiros das casas, sendo que em alguns casos os porcos ficam presos em mangueiros e chiqueiros.  As aves e suínos não tem raças definidas e são criados visando o consumo familiar.  Normalmente não são utilizados meios de produção externos na criação destes animais que são alimentados com produtos da roça, exceto farelo para suplementar a alimentação dos porcos.
Os bovinos são geralmente azebuados, e os eqüinos são sem raça definida, os mesmos são criados soltos no cerrado e nas pastagens naturais, e em alguns casos nas pequenas pastagens artificiais de brachiaria que começaram a ser formadas na área.  O número de cabeças de bovinos por família é reduzido, havendo casos de famílias que não possuem nenhum animal.   Os bovinos são utilizados para produção de leite, destinado ao uso domestico, e para a cria de bezerros.  Os eqüinos são utilizados como montaria e tração de charretes (no sitio Barreiro não se utiliza tração animal nas roças).
As famílias de agricultores do Sitio Barreiro não recebem assistência técnica, créditos subsidiados, nem incentivos agropecuários provenientes de órgãos estatais, e em sua maior parte não utilizam o credito rural.
Coletam diversos tipos de plantas, que são utilizadas como alimentos, materiais para construção, remédios e combustível.  Usam: 1 -: madeiras e sapé para a construção de casas de pau à pique, madeiras para cercas, currais, chiqueiros e mangueiros; 2 - lenha para uso doméstico (anos atrás vendiam lenha para cerâmicas e padarias); 3 - frutas silvestres tais como Mangava, Lixirum, Gabiroba, Fruta de lobo, Cajuzinho do cerrado, Marmelada do cerrado, Articum, Coroa, Coroinha , que são consumidos in-natura ou na forma de doces; 4 - plantas utilizadas como remédios para pessoas e animais, conhecidas com os nomes locais de : Gervão, Erva de Santa Maria, Mama de porca, Caravinha, Raiz de bugre, Arvore de bicho, Fedegoso, Raiz de Santo Antônio, Velame, Cambarú, Assapeixe, Vassourinha, Casca de jatobá, Barba de bode etc.
 A caça e pesca são utilizadas para a complementação da dieta familiar, não tendo importância econômica.
         Segundo informações dos moradores da comunidade, no passado, eles produziam, em suas casas, farinha de mandioca, rapadura, redes de algodão, doces de frutas, que eram destinados ao consumo das famílias e venda de parte da produção.   Atualmente a produção desses produtos diminuiu sensivelmente e as poucas famílias que continuam produzindo estes produtos, o fazem para o consumo familiar
Parte dos moradores do sitio Barreiro trabalha sazonalmente nas lavouras dos moradores da própria comunidade, principalmente na capina de lavouras e na colheita de banana, arroz e cana de açúcar.  Freqüentemente, alguns membros das famílias tornaram-se trabalhadores sazonais em fazendas da região, ou assalariados em empregos urbanos, principalmente em Cuiabá e Várzea Grande.
È expressivo o número de pessoas da comunidade que são aposentadas.  As aposentadorias têm um expressivo papel na manutenção das famílias da comunidade.  Outra fonte de recurso são as remessas de dinheiro ou de outro tipo de contribuição (alimentos, meios de produção, bens de uso pessoal e domestico) realizadas por parentes que moram nas cidades.
Conclusão
No Sitio Barreiro, se pratica uma agricultura com base na policultura, consorcio, pousio, fertilidade natural do solo, utilização de meios de produção originários da própria localidade, e o uso de mão de obra familiar, somada às práticas de auxilio mútuo e a contratação sazonal de mão de obra local.
A produção pecuária é para autoconsumo. A produção agrícola é destinada ao autoconsumo e ao mercado.  Utilizam tecnologia agropecuária que prioriza o uso de recursos originários na própria comunidade.
A coleta de plantas é importante como fonte de materiais de construção, alimentos, remédios e combustível.  A caça e a pesca não têm valor comercial, mas servem para a complementação da alimentação das famílias.
O artesanato e a industrialização caseira, que no passado foram intensas, atualmente são realizados apenas para o consumo familiar,
As outras formas das famílias do sitio Barreiro obterem recursos externos são a venda de mão de obra permanente ou sazonal, a aposentadoria, e o dinheiro e recursos provenientes de membros da família e parentes moradores em outras áreas urbanas.

Notas do texto
1) Professor da Universidade do Estado de Mato Grosso/campus de Cáceres. Coordenador do Projeto de pesquisa “Levantamento das comunidades negras rurais dos municípios de Nossa Senhora do Livramento, Poconé, Barra do Bugres e Cáceres” financiado pela FAPEMAT e apoiado pela UNEMAT

Bibliografia
LINHARES, Luiz Fernando do rosário. Organização Econômica dos quilombos In: FUNDAÇÃO CULTURAL PALMARES. Quilombos no Brasil . Brasília , nov. 2000. (Revista Palmares, n.5 )

ALTIERI, Miguel. Agroecologia : As bases Científicas da Agricultura Alternativa,. Rio de Janeiro: PTA/FASE, 1989.

FEARNSIDE, Philipe M. Agricultura na Amazônia - Tipos de agricultura: Padrões e Tendências In: CASTRO, Edna M. Ramos; HEBETTE, Jean (Org..). Na Trilha dos Grandes Projetos. Belém: NAEA/UFPA, 1989.

ALMEIDA, Alfredo W. Bernó de . Terra de Pretos, Terra de Santos, Terra de Índios - uso comum e conflitos. In: CASTRO, Edna M. Ramos; HEBETTE, Jean (Org.). Na Trilha dos Grandes Projetos. Belém: NAEA/UFPA, 1989.

MOURA, Antônio Eustáquio de Moura. Projeto de Pesquisa Comunidades  Remanescentes de Quilombos no município de Nossa Senhora do Livramento/MT. Campinas: Unicamp, 2000. digitado.

ANDRADE, Tânia (Org.). Quilombos em São Paulo: tradições, direitos e lutas. São Paulo: Instituto de Terras do Estado de São Paulo, 1997

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