terça-feira, 6 de setembro de 2011

IDENTIDADE ÉTNICA E FESTAS QUILOMBOLAS NO ESTADO DE MATO GROSSO

1


IDENTIDADE ÉTNICA E FESTAS QUILOMBOLAS NO ESTADO

DE MATO GROSSO

Prof. Dr. Antônio Eustáquio de Moura

UNEMAT/campus de Cáceres – Financiamento FAPEMAT

eustaquiodemoura@yahoo.com.br.

Resumo

Inúmeros trabalhos sobre as festas realizadas pelas populações negras rurais relacionam a importância dessas festas no fortalecimento dos grupos de camponeses negros, bem como na positivação da identidade étnica dos mesmos. Este texto se refere às festas realizadas em comunidades quilombolas matogrossenses, observadas em trabalhos de campo que realizamos no período de 2000 a 2010. São comemorados Santos e Santas identificados etnicamente com a população afro-brasileira, mas, também outros santos sem esta vinculação étnica. As festas das comunidades negras rurais vêem passando por mudanças: as danças e musicas tradicionais (Cururu e o Siriri) estão desaparecendo ou tendo um papel cada vez mais secundário, em detrimento dos bailes, com conjunto musical ou com som mecânico, que passam a ser a principal atração da festa, principalmente para os jovens e pessoas provenientes das cidades vizinhas. As rezas em frente ao altar, especialmente adornado, tornam-se mais rápidas e passam a ter pouca participação do público. Com a etnogênese da identidade de remanescente de quilombo (quilombola) começou a haver mudanças nas festas de santo e/ou o inicio de festas de comemorações étnico e cultural, com objetivo político e social de divulgar a cultura afro-brasileira e as manifestações culturais quilombolas e reafirmar a identidade de quilombola (remanescente de quilombo). Pode-se citar como exemplo destas alterações as festas e comemorações no Complexo Sesmaria Boa Vida Quilombo Mata Cavalo, município de Nossa Senhora do Livramento - MT (festas na comunidade do Mutuca, comunidade de Mata Cavalo de Cima e a Exposição Cultural relacionada ao Dia da Consciência Negra realizada na comunidade de Mata Cavalo de Baixo). Outro exemplo marcante são as comemorações do “Dia da Consciência Negra” (20 novembro) realizada pelas comunidades negras rurais de Poconé, MT.

Palavras chaves: Identidade étnica; festas quilombolas; mudanças culturais; comunidades negras rurais, Estado de Mato Grosso

Festas nas Comunidades negras rurais

De acordo com Gloria Moura, os escravos negros em suas festas, invocavam o poder dos deuses e dos santos, sendo as mesmas uma forma elementar de resistência para manter o corpo vivo e transformar o terror e a tristeza em força, para sobreviver, viver e resistir,sendo que também uma forma de reagir ao poder dos escravocratas. Fazendo uma ligação com esse tipo de

2

resistência, a autora acima citada considera que as festas nas comunidades rurais negras são formas de resistência e marca de persistência dos negros na luta pelos seus direitos. (1998, p.13). Continuando a sua analise considera que:

A festa é uma trégua indecisa da luta: todos interrompem o confronto direto, o trabalho, as atividades rotineiras para participar da celebração comum. As pessoas procuram a transcendência, os pequenos desafios do cotidiano são esquecidos. Pode-se fazer uma imagem da festa como um caleidoscópio no qual se refletem vários aspectos da vida social (MOURA, G., 1998, p. 13).

Continuando, Gloria Moura afirma que a festa pode ser considerada a síntese da vida comunitária evidenciando seus vários aspectos.

[A festa] [...] permite entrever as múltiplas relações que têm lugar numa micro sociedade e os valores que assim ela explicita: do parentesco ao meio ambiente, do calendário agrícola ao respeito aos mais velhos, da produção artesanal à história dos ancestrais, da liderança feminina ao conhecimento das plantas, das relações de afetividade aos valores humanos considerados fundamentais. Por esta razão, a festa, com seus ritos e símbolos, revela os costumes, os comportamentos, os gestos herdados e aponta ao mesmo tempo para as negociações simbólicas entre essas comunidades negras e os grupos com os quais interagem [...] (1998, p.14

Ainda analisando o papel das festas e rituais religiosos nas comunidades rurais negras, Gloria Moura considera, que o ritual é uma das formas de reafirmação e transmissão de valores da comunidade, garantindo a estabilidade da autoridade no interior do grupo. São os eventos de maior força e significação dentro da comunidade; “[...] elas têm importância intrínseca, pois é esta verdadeira „cultura da festa. que evidencia o que mantém em cada um o sentido de pertencimento ao grupo.” (1998, p.14). Se refere a introdução de novos elementos culturais nestas festas religiosas(exemplo: o samba e as musicas sertanejas), mas afirma que essas mudanças estão a serviço da coesão do grupo (1998, p.23).

Sueli Castro (2001), abordando a “Festa Santa” (Festa de Santo) realizada no Distrito de Baús, uma localidade da Baixada Cuiabana, afirma que a festa torna mais acelerado o ritmo de vida da localidade; que a festa tem um longo ritual antes do dia festivo, pois o festeiro tem de organizar a comitiva que vai solicitar doações para a festa (“ismolá o santo”), tem de trabalhar mais nas atividades agropecuárias para prover a festa. Os moradores da localidade e [regiões vizinhas] também ficam envolvidos com a festa, antes que ela aconteça, ao receber e alimentar a “comitiva”. Nos dias que antecedem a festa, ocorrem muitas atividades na residência do festeiro,

3

e junto à igreja da localidade, com a limpeza da área, a construção de ranchos [provisórios] para o bar e do local de servir a comida; enfeitar o altar e os andores dos santos, matar animais e desmembrá-los; preparo das comidas,licores etc.

A referida autora ressalta a fartura de alimentos:

A fartura de alimentos é uma das qualidades fundamentais [da festa] e cabe ao Festeiro ofertar o que há de melhor, e a gratuidade é sine qua non

Pois estabelece a absoluta reciprocidade [...] A fartura só se concretiza porque o todo e as partes desempenharam cada um os seus papeis estabelecendo um viver no coletivo e para o coletivo (CASTRO, S. 2001,p.184)

A indiferenciação existente nas festas das comunidades negras entre o sagrado e o profano, entre o lúdico e o religioso no tempo da festa, também é ressaltada por Marília Reis de Moura (2005) na pesquisa realizada na “Festança” em Vila Bela da Santíssima Trindade/MT, e por Gloria Moura nos textos sobre festas nos quilombos (1998 e 2005).

As festas nas comunidades negras rurais do Quilombo Mata Cavalo e as Comemorações do Dia da Consciência Negra’ realizadas pelas comunidades negras rurais de Poconé.

As Festas de Santos no Complexo Mata Cavalo, de acordo com a amplitude e número de participantes, podem ser classificadas como festas de grande porte ou de pequeno porte. Considera-se de grande porte aquelas festas em que há a participação de centenas de pessoas, negras e não negras, parentes e não parentes das famílias quilombolas, pessoas provenientes da própria comunidade onde a festa é realizada, de outras comunidades do quilombo, de agrupamentos vizinhos, e das cidades de Cuiabá, Várzea Grande e Livramento. Nas festas de santo de pequeno porte são poucos os participantes de outras comunidades e localidades, sendo a maioria das pessoas presentes provenientes da própria localidade onde o evento acontece.

Normalmente as grandes festas de Santo são realizadas por famílias que têm maior destaque, prestígio e poder aquisitivo, geralmente lideranças das comunidades ou parentes próximos das mesmas. Estas festas, além de contribuírem para a coesão do grupo e encontros com parentes que moravam fora da comunidade, servem para reafirmar laços de amizade e

4

convivência com comunidades vizinhas, mostrar e fortalecer o prestígio e a liderança da família festeira, assim como o prestigio da comunidade.

Como não há energia elétrica na maioria das casas das comunidades negras, na ocasião dessas festas são alugados motores a diesel geradores de energia para a iluminação, para o uso nas aparelhagens dos conjuntos musicais ou "som mecânico”, que animam os bailes, e para a refrigeração das cervejas e dos refrigerantes que são vendidos durante o evento.

A comida, doces, biscoitos, licores, cachaça e guaraná. (guaraná em pó com água gelada e açúcar) são gratuitos, sendo fartamente servidos às pessoas presentes Há a “subida de mastro” com desenho do santo ou santa festejado,(a); a reza com ladainha cantada em “Latim”, o cururu, o siriri e o baile, cuja entrada é paga para custear os gastos com o conjunto ou “som mecânico”, e com o aluguel e combustível dos geradores de energia elétrica.

É rezada missa, quando há a presença de padre, mas a maioria das festas de santo é realizada sem a presença de um padre. As rezas e cânticos são puxados por rezadores ou rezadoras, denominados na região de “capelão” ou “capeloa”. Estes especialistas religiosos podem ser das comunidades do quilombo, ou, em alguns casos, virem de outras comunidades,especialmente convidados para realizar esta parte da festa.

São Benedito e São Gonçalo são os santos mais festejados nas comunidades negras de Mata Cavalo, sendo o primeiro considerado santo dos negros e o segundo um santo dos pobres e dos excluídos.

No ano de 2002, presenciamos a festa realizada na residência de Dona Rosa, matriarca da comunidade do Mutuca. Uma festa que pode ser considerada de grande porte e que como será mostrado começou a ter algumas modificações relacionadas à etnogênese da identidade de remanescente de quilombo e consequentemente ao processo de territorialização que ocorre nas comunidades negras do complexo Mata Cavalo.

A festa foi iniciada em um sábado. Na parte da tarde, as cozinheiras, na maioria filhas de Dona Rosa, estavam atarefadas preparando a carne de uma vaca. Os homens, todos parentes de Dona Rosa, auxiliavam a festa, abatendo e desmembrando a vaca, em local afastado do local da festa, e trazendo a carne para a cozinha, onde foi cortada em pedaços menores para ser cozida em enormes panelas (1).

5

Laura, neta de dona Rosa, e uma senhora de uma comunidade vizinha, preparavam o altar instalado em um local coberto de palha de babaçu e enfeitado de bandeirinhas de papel de diversas cores. No altar, destacavam-se as imagens de São Benedito e São Gonçalo (no ano posterior foi introduzida uma imagem de Nossa Senhora da Aparecida)

À noite, por volta das 19h00min, teve inicio a subida dos mastros dos santos festejados, os cururueiros não haviam chegado e portanto a cerimônia foi acompanhada por cantigas das pessoas presentes e com os espocar de foguetes. Havia apenas umas 20 pessoas acompanhando a subida do mastro. O restante dos participantes da festa, em torno de 150 pessoas, ficaram no terreiro da casa, próximas ao local onde eram vendidas cervejas e refrigerantes em latas, à cozinha onde já estava sendo servida a comida e ao local onde estava instalado o “som mecânico”.

Após a subida do mastro, foi iniciada a reza, em frente ao altar. Cantada em latim, pela capeloa, os versos da reza eram respondidos por parte dos presentes. Havia em torno de 50 pessoas no local, muitas delas apenas curiosas que não sabiam responder os cânticos da capeloa.

Depois da reza, o pessoal se espalhou pelo área da festa, indo jantar, conversar com amigos etc. No jantar, havia paçoca de carne (carne de boi cozida e socada com farinha de mandioca), arroz branco, carne de boi com mandioca, arroz e feijão. Também foram servidos doce de leite, doce de mamão e licor de leite. A comida foi fornecida até as 02h00min, e o licor, durante toda a noite. Não era cobrado nada, e as pessoas podiam repetir o quanto quisessem. A cerveja e o refrigerante eram vendidos, os preços eram semelhantes aos cobrados em bailes da cidade.

Após o jantar, na coberta onde estava o altar, iniciou-se o cururu. Haviam dois tocadores de viola de cocho, um tocador de pandeiro e uns quatro outros participantes (a maioria idosa). Em volta dos tocadores, ou sentados em bancos próximos ficava um pequeno publico, assistindo o cururu. Eram homens e mulheres, adultos ou idosos, quase todos do Mutuca e comunidades vizinhas. Não haviam jovens nessa parte da festa.

O cururu não estava muito animado e atraia a atenção e participação de poucas pessoas. Por volta das 01h00min haviam apenas 10 pessoas, e logo a musica cessou, ou seja, o cururu terminou antes da hora, pois de acordo com depoimentos de antigos moradores do Complexo Quilombo Mata Cavalo, no passado o cururu parava com o raiar do dia.

6

No auge da festa, entre as 22h00min e as 02h00min da manhã, havia um público em torno de 300 pessoas, tanto da Mutuca, quando de comunidades vizinhas, mas também das cidades de Livramento, Várzea Grande e Cuiabá. Vieram três ônibus de Cuiabá e Várzea Grande trazendo parentes e amigos das famílias da Mutuca. O primeiro ônibus chegou antes da subida do mastro, e por volta das 22h00min chegaram os outros dois. As pessoas das comunidades do entorno e de Livramento, vieram de carro, motocicleta, ou a pé.

O barracão de Palha onde funcionava a escola da comunidade foi utilizado para apresentações de um grupo de dança afro-brasileira e de tocadores de pandeiro e sambistas, ambos provenientes de Cuiabá e relacionados ao “Movimento da Inteligência Negra MIN” , que faz parte do “Movimento Negro de Mato Grosso”. As apresentações duraram em torno de uma hora.

Por volta das 23h00 foi iniciado o baile no barracão da escola. A entrada das mulheres era franqueada, mas os homens pagavam três reais. O baile terminou por volta das 06h00min, sendo que logo após houve a saída dos ônibus com destino a Cuiabá e Várzea Grande.

Após o fim do baile foi servido o“chá com bolo”, um lanche composto de chá mate frio e biscoitos feitos de polvilho. Em seguida, já com poucas pessoas de fora, pois os ônibus com os visitantes já haviam partido, houve um animado siriri, com a participação de pessoas da comunidade.

Após o almoço, servido por volta das 11h00min, a festa terminou, havia poucas pessoas presentes, quase todas da comunidade do Mutuca.

De modo geral, nas festas de Santo de menor porte, onde o publico é, em sua maior parte da comunidade onde se realiza a festa e das comunidades circunvizinhas, não há a necessidade de adaptar a festa para adequá-la ao publico externo, de forma que são muito semelhantes às festas realizadas no passado, exceto por não durarem vários dias.

Assisti no inicio da década de 2010, a festa de santo realizada pelo Sr Cesário, festa que pode ser classificada como de pequeno porte. Foi realizada na Placa São Carlos, uma localidade do Mata Cavalo de Baixo. O Sr Cesário era um crítico da forma atual de realização das festas de Santo, principalmente pela importância assumida pelos bailes e a diminuição da duração das cerimônias. Ele pretendia realizar a festa de Santo “ao modo antigo”

7

A festa de Santo do Sr Cesário Sarat aconteceu em final de semana. Foi realizada em um local, próximo às casas dos parentes do mesmo. Foram construídos quatro barracões de palha de babaçu, especificadamente destinados a realização do evento.

No sábado a tarde havia poucas pessoas. No almoço foi servido carne de porco com banana verde, arroz sem sal e feijão (2). Por volta das 20h00 , começaram a chegar os festeiros, soltando foguetes. Era interessante ver no escuro da noite, as luzes (lanternas) “andando” nos caminhos em direção ao local construído para a realização da festa.

O jantar, servido por volta das 21:h00, compunha – se de arroz com carne de porco, frango com mandioca, arroz branco e feijão puro, acompanhados de licores de leite, de erva doce e pinga. Tudo era grátis, menos a cerveja em lata, armazenada em uma caixa de isopor e vendida para quem desejasse.

Depois do jantar houve o levantamento de dois mastros com tronco fino com cerca de 8 metros, um com a bandeira de São Sebastião e outro com a bandeira de Jesus e Maria José. Os cururueiros, acompanhados por pessoas com velas acesas cantaram para louvar o mastro, na cerimônia de beijar as bandeiras, na subida do mastro e nas danças em torno do mastro já fixado. Essa cerimônia durou em torno de uma hora e meia. Após, houve, em frente ao altar, o terço cantado (ladainha) puxado por duas “capeloas”. Os presentes, em torno de quarenta pessoas, acompanhavam a reza repetindo ou respondendo algumas frases das capeloas. A reza durou uma hora, terminando por volta das vinte e quatro horas e vinte minutos.

O restante das pessoas, em torno de cem pessoas, ficaram próximas ao local da reza, conversando e bebendo. A maioria dos jovens ficou próxima de um carro, onde um toca fita tocava músicas “da parada de sucesso”, semelhantes às que apresentadas nas rádios da Baixada Cuiabana.

Após a reza, houve a apresentação da lista dos festeiros (as) para a próxima festa e leilão de assados (frangos e pedaços de carne de porco). Cuidando da segurança haviam 3 policiais militares de Livramento.

Apesar de estar programado, não houve o siriri, pois não havia a banqueta de percussão. Também, não houve baile, apesar de algumas tentativas de iniciá-lo, possivelmente pela falta de aparelhagem de som potente. Em parte não ocorreu pois, o Sr Cesário considerava que bailes prejudicam as festas de Santo.

8

Por volta das 01h00, a maioria das pessoas foi embora e o primeiro dia da festa foi encerrado.

No outro dia, de manhã foram servido chá, sucrilhos (biscoitos) de polvilho, café e bebida feita com guaraná em pó. No almoço, foram servidos macarronada com frango, arroz temperado e feijão. Também havia licores de jatobá, de acerola, de leite e de capim cidreira, doce de leite e rapadurinha de cana de açúcar.

Na festa, estavam presentes pessoas de Livramento e pessoas e lideranças de outras comunidades do Complexo Mata Cavalo. Apesar do Sr Cesário ser “Pai de Santo”, reconhecido na região e atendendo na Casa São Benedito em Livramento, nesta festa não foi constatado nenhuma atividade relacionada à Umbanda.

Nas festas acima descritas e em outras que, posteriormente acompanhamos, podemos destacar os seguintes aspectos: 1- As festas de grande porte são realizadas pelas famílias das lideranças das comunidades, sendo uma forma comprovar o prestigio das mesmas; 2 - o afastamento dos jovens de algumas partes consideradas tradicionais das festas, tais como o cururu, o siriri, a reza, o levantamento do mastro; 3 – a abertura da festa para a participação dos não quilombolas; 4 – a ausência de aspectos da religiosidade de matriz africana; 5 – a introdução de novos elementos culturais nas festas – energia elétrica, som mecânico, aparelhagens de som,cerveja, refrigerantes, etc.; 6 – o baile tornaram-se uma programação presente na maioria das festas.

Nos últimos anos, depois que o Complexo Sesmaria Boa Vida- Quilombo Mata Cavalo foi considerado remanescente de quilombo, surgiu, outro tipo de festa, que tem um objetivo mais político e cultural, sendo mais explícito na valorização étnica e das tradições da comunidade. Trata-se da Feira Cultural dos Remanescentes do Quilombo Mata Cavalo, realizada anualmente na Comunidade de Mata Cavalo de Baixo, em 20 de novembro (Dia de Zumbi) ou em data próxima.

Na comemoração ocorrida em 2001, foram construídas barracas para a exposição e venda de produtos artesanais fabricados por algumas famílias da área. Também foi construído um barracão para a realização da parte oficial da festa e apresentação de grupos artísticos do complexo Mata Cavalo, do Movimento Negro de Cuiabá e de Livramento. Houve a apresentação de cururu, siriri, capoeira, dança afro e Dança do Congo.

9

Na parte oficial da comemoração, com a presença do presidente da Fundação Cultural Palmares, do prefeito de Livramento, de alguns vereadores e visitantes provenientes de Cuiabá e Livramento, houve discursos “das autoridades” e a entrega de “Placas de Honra ao Mérito” para pessoas e entidades que fizeram algum tipo de ação considerada importante para as comunidades negras do Complexo Mata Cavalo.

As “Comemorações do Dia da Consciência Negra” realizadas pelas comunidades negras rurais quilombolas de Poconé/MT são um exemplo da tentativa de mesclagem entre os novos aspectos de afirmação da identidade quilombola, a valorização da cultura afro - matogrossense, e da interação entre atividades consideradas profanas e as consideradas religiosas. Esta comemoração foi iniciada em 2005, no decorrer do processo de etnogênese da identidade de quilombola nas comunidades negras de Poconé. A quinta edição deste evento foi realizada em novembro 2009, na comunidade do Laranjal, onde 23 comunidades e 1.500 pessoas participaram do evento. Destacaram no evento a realização de oficina de penteados afro; o desfile da beleza negra, abertos à todas as pessoas presentes sem haver disputa de primeiros lugares e júri; as apresentações de cururu e siriri; o culto ecumênico (no ano passado houve participação de umbandistas); a exposição de pesquisa sobre as comunidades, apresentações culturais realizadas por alunos e alunas de escolas localizadas em comunidades quilombolas; e os discursos alusivos ao dia feitos por membros da Coordenação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas de Poconé e convidados. Gratuitamente,foi servido lanche e jantar, e realizado baile.

Conclusão

Nas grandes festas de santo, o levantamento dos mastros, o cururu e o siriri estão recebendo menos cuidados dos festeiros na sua preparação e execução. A realização dessas atividades está mais rápida, tendo menor público, o qual é constituído, em sua maioria, por pessoas idosas.

Constatamos que houve nas festas de santo, a introdução de atividades culturais, visando ressaltar e valorizar a cultura das comunidades e a cultura afro-brasileira, em alguns casos foram criados outros eventos visando realizar esta tarefa.. Estes fatos são decorrentes da etnogênese da identidade negra de remanescente de quilombo nas comunidades negras rurais. Passaram a

10

apresentar e dar destaque à cultura afro-brasileira existente nas comunidades da gleba, como forma de reafirmar a identidade negra e de remanescente de quilombo.

Existe o risco de que as mudanças nas festas de santo e em outros tipos de manifestações culturais sejam tão grandes que causem estranhamento nos moradores das comunidades, e que,os mesmos passem a não considerar as comemorações como se não fossem suas, mas sim dos visitantes que começam a aparecer em grande número nas festas e eventos realizados pelas comunidades negras rurais.

As mudanças que estão ocorrendo nas Festas de Santo estão despertando criticas entre antigos moradores do complexo Mata Cavalo, saudosos da forma tradicional como as mesmas eram realizadas no passado. Entretanto, as mudanças econômicas, políticas e culturais ocorridas nas comunidades negras de Mata Cavalo e nas de Poconé, e na sociedade em geral, dificultam que as festas sejam idênticas ao que eram tempos atrás. Existe a possibilidade de haver uma aproximação entre os defensores da forma tradicional de realizar as festas e as lideranças quilombolas, desejosas de manter e divulgar a cultura das comunidades negras rurais, a cultura afro-brasileira mas também de manter a coesão das comunidades. Ou seja, poderá ser possível, mesclar o “tradicional” e o “novo”, os aspectos considerados importantes para os moradores das comunidades e também para o público externo, podendo haver festas e manifestações culturais destinadas a cada um destes públicos, e em momentos diferentes.

BIBLIOGRAFIA

ALMEIDA, Alfredo Wagner Berno de. Os quilombos e as novas Etnias In Sérgio Leitão (org. ) Direitos Territoriais das Comunidades Negras Rurais . Documentos do ISA , n.5, jan. 1999.

CASTRO, Suely Pereira. A Festa Santa na Terra da Parentalha: festeiros, herdeiros e parentes Sesmaria na Baixada Cuiabana – Mato Grosso. 2001,419f. Tese (doutorado em Antropologia Social) – Departamento de Antropologia,Faculdade de Filosofis, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, 2001.

MOURA, Antonio Eustaquio. Quilombo Mata Cavalo, a Fênix Negra Mato – Grossense: Etnicidade e Luta pela Terra no Estado de Mato Grosso. 2009, 281 f. Tese (doutorado em Ciências Sociais) – Instituto de Filosofia e Ciências Sociais,Universidade de Campinas, 2009.

11

MOURA, Glória. A força dos tambores: a festa nos quilombos contemporâneos. In : SHWARCZ, Lilia Moritz; REIS, Letícia Vidor de Souza (Org.) .Negras Imagens: ensaios sobre cultura e escravidão no Brasil. São Paulo: Ed. Universidade de São Paulo: Estaçao Ciência , 1996. P. 55 – 80.

_______ . As Festas Quilombolas e a construção da Identidade in: DOPCKE, Wolfgang. Crises e Reconstruções: estudos afro - brasileiros africanos e asiáticos. Brasília: Linhas Gráficas, 1998.

_______ . Fé, Alegria e Luta - O Exemplo dos Quilombos Contemporâneos. Revista Palmares. Brasília, n.5, Nov. 2000, p. 147 – 160.

MOURA, Marília da Conceição Reis de. Construções culturais nas práticas alimentares da Festança em Vila Bela da Santíssima Trindade- Mato Grosso. 2005, 266 f. dissertação (Mestrado em História) – Universidade Federal de Mato Grosso,Cuiabá,

SODRE E DANTAS, Triana de Veneza . Educação do Negro: Pedagogia do Congo de Livramento - MT. Dissertação (Mestrado em Educação Pública.) - Universidade Federal do Mato Grosso, 1995.

Nenhum comentário:

Postar um comentário